terça-feira, 1 de maio de 2018

Retratos na Caixa de Leite

Idéias vêm e vão. Desenvolvê-las nem sempre é fácil e muitas das vezes elas se perdem no caminho.
Este é o argumento ou sinopse de uma história que talvez seja escrita um dia. 





Anna, uma premiada repórter de 30 e poucos anos é mãe adotiva de um adolescente chamado Joaquim de 13 anos e esposa de Juliano, um típico delegado de polícia quarentão da cidade de São Paulo, com modos um tanto machistas - ele preferia que a mulher ficasse em casa cuidando do filho, muito amado por ambos. Ela fica intrigada com a morte de Tony Cabral, policial colega de Juliano que havia entrado na corporação há menos de dois anos mas que morreu de overdose dias depois de ser transferido para uma cidade do interior. O que incomoda Anna é o fato de que tempos atrás Tony tinha se tornado uma celebridade em outra cidade por ter ajudado a unir mães e seus filhos desaparecidos através da confecção de retratos que uniam fotos das crianças desaparecidas com as fotos dos pais quando tinham a idade que a criança teria naquele momento. Anna, inclusive, fizera a  matéria sobre o assunto, o que lhe rendera diversas premiações.

 Sentindo que havia "algo mais" nesta história, Ana e sua parceira Elizabeth, uma estagiária de vinte e poucos anos começam a investigar sigilosamente as atividades de Tony, uma vez que Juliano é estranhamente contra o envolvimento dela com o caso. Em certa altura das investigações, elas conversam com as mulheres que procuraram pelos serviços de Tony ao longo dos anos e percebem que muitas tinham em comum o fato de terem sido ex-detentas de um mesmo presídio. As desconfianças aumentam quando algumas dessas mulheres são assassinadas. Investigando, a dupla descobre uma quadrilha que sequestrava crianças filhos de presidiárias, acobertada pelos agentes e policiais locais que recebiam suborno para deixar a quadrilha atuar naquela época. Atrás da cabeça da quadrilha, Elizabeth descobre sem querer que Juliano também fizera parte do esquema, e que Joaquim pode ser uma das crianças sequestradas; muito abalada, deixa a cargo de Ana decidir o que fazer. 


Ana mata Elizabeth e revela-se a responsável por todas as mortes até então. Ela desaparece no mundo com seu filho, não sem antes montar uma matéria-denúncia acusando a corporação - inclusive o marido - e enviando uma carta à mãe biológica do menino pedindo desculpas pelo ocorrido, mas que não era forte o suficiente para dividir a criança.




quarta-feira, 4 de abril de 2018

Bombyx Mori Tupiniquim¹




       Naquele reino de personagens estranhos, “uma prostituta chamada Brasil se esqueceu de tomar a pílula e a barriga cresceu”.² Ela era uma vaca, de lindos cabelos verdes, onde toda fauna e toda flora se abrigava; seus olhos eram de um azul infinito, cristalino como as águas e como o céu. E de suas centenas de tetas escorriam leite e mel, que também saciava a fome de Povus, a quem ela servia.

       O problema era seu cafetão. Politicvs era um ser ardiloso, mesquinho e cruel. Ficou furioso quando Brasil engravidou, mas percebeu que, com sua gravidez, as tetas produziam mais. Brasil não quis se livrar dos próprios filhos e garantiu a Politicvs que eles iriam ajudá-la a cuidar de Povus. Sob esta promessa nasceram os trigêmeos Saúde, Educação e Cultura e com o leite da mãe cresciam bem. Até que Politicvs passou a exigir mais da sua parte, mas ficaria feio para ele reclamar na frente de Povus: então, na calada da noite, enquanto todos dormiam, drenava o leite de Brasil e este começou a faltar. Povus indignou-se com a falta de leite e Politicvs espalhou para quem quisesse ouvir que Brasil não estava cumprindo com seus deveres porque Povus não lhe dava as devidas recompensas.  Mas Brasil se esforçava em atender Povus, e os filhos dela a ajudavam, como prometido. E com Saúde, Educação e Cultura, Povus começou a se questionar sobre a real necessidade de ter Políticvs intermediando sua relação com Brasil. Assim, prevendo que deixaria literalmente de mamar nas tetas de Brasil, Políticvs lançou-se em um plano arriscado: sempre na calada da noite, tirou também o leite dos filhos de Brasil. Saúde e Educação foram os primeiros a definhar, enquanto Cultura resistia bravamente. Brasil continuava reservando igualmente suas parcelas de leite para seus filhos, que se revertia em prestação de serviços para Povus, mas enfraquecidos, o serviço das crianças era cada vez mais mal feito. Povus novamente procurou saber o que estava acontecendo e Politicvs prontamente respondeu: “Você não está recompensando Brasil suficiente, logo, falta leite para as crianças!”. “Mas cultura está bem!”, argumentou Povus, “É claro: é ele quem tira o leite dos outros irmãos! De quem você precisa mais? Vamos tirar o leite de Cultura e assim sobrará mais para os outros dois!”.

       O plano deu certo: Brasil continuava a distribuir igualmente o leite entre seus filhos, mas na calada da noite Politicvs tomava uma parte de Cultura para si e distribuía o restante para os outros dois irmãos. A melhora deles foi considerável, mas não suficiente. “Você precisa pagar mais pelos serviços de Brasil! Só assim vai melhorar! Esta mãe ingrata está deixando de produzir e a culpa é sua: pague mais! Pague mais!”, gritou Politicvs aos quatro cantos. Povus triplicou sua contribuição pelos serviços de Brasil, ela era tributado de todas as formas possíveis e inimagináveis – chegando a pagar para ter que trabalhar! Mas Brasil nunca via o retorno deste dinheiro: tudo era guardado nos bolsos, nas malas, nas calças e nas cuecas de Políticvs. O leite estava acabando. Saúde e Educação definhando, seu irmão mais velho, Cultura, há muito morrera de fome. Povus também enfraqueceu, não conseguia pensar. Só sabia esbravejar e brigar por coisas idiotas; não tinha forças para mais nada, convencido de que a culpa era de Brasil, aquela vaca ingrata que não servia para nada e daqueles que pensavam diferente dele.

       Vendo que a vaca ia para o brejo, Politicvs arrumou suas malas e foi para um paraíso fiscal qualquer, não sem antes deixar seus filhos de olho nela: enquanto a vaca desse uma gota de leite, ele queria a sua parte.
     
       E Povus, sem Saúde, Educação e Cultura, só sabia gritar: “Pátria que me Pariu!”³



¹Bombyx Mori é o nome cientifico do Bicho da Seda, que por sua vez é o título do segundo livro que J.K. Rowling escreveu sob o pseudônimo de Robert Galbraith. Nele, um detetive investiga a morte de um autor cujo livro (Bombyx Mori) retrata, de maneira pouco ortodoxa e cheia de analogias, várias personagens de sua vida real.
² e ³: Versos da música “Pátria que me pariu” de Gabriel, o Pensador.

O bom filho...

Sim, depois de um longa pausa estamos de volta!

O sumiço tem um bom motivo: a divulgação do livro Contos da Dona Noite, muito bem recebido nos saraus da região. Isso não diminuiu o prazer da escrita, mas privou o blog da publicação de muitos contos e a continuação da fanfic Arquimagos. Peço um milhão de desculpas por isto.

Mas quero dizer que esse tempo foi proveitoso para muitas narrativas que serão publicadas por aqui.
Vou abrir o leque para compartilhar materiais que tenho encontrado nas redes e de novos autores que encontro aqui e acolá. Também vou compartilhar com vocês os materiais que produzi como roteiros de curta metragens, e muitas storylines que vocês poderão se inspirar para criar as histórias de vocês - exatamente: talvez a sua ideia para uma história seja um milhão de vezes melhor do que a minha, e eu quero lê-la! Ficarei muito feliz em saber que contribuí para mais um maravilhoso trabalho literário ou artístico por aí...

Então vamos juntos?

Porque é muito bom ter você por aqui!

P.B. Caprice

sábado, 16 de dezembro de 2017

Arquimagos - Explorando Labornok

Atenção: esta é uma fanfic baseada na obra "A senhora do Trílio" de Marion Zimmer Bradley, por sua vez parte integrante da série Trílio, onde participaram também as autoras Julia May e Andre Norton.

Capitulo XIV


  
Uma mão silenciou o grito da arquimaga. Ela curvou-se sobre aqueles braços e chorou a morte da mulher e das duas jovens. Estava em choque, e por isso abraçou-se àquele corpo em busca de consolo. Só então notou que era um corpo estranho, com pelos demais e um cheiro desconhecido. Abriu os olhos: quatro pares de olhos desconhecidos a miravam, curiosos e ameaçadores. Ela tentou desvencilhar-se dos braços e gritar por Fiolon, mas uma mordaça foi colocada em sua boca e uma pancada a deixou desorientada. “ O truque de D. Angélica deu muito errado!”, pensou, enquanto seus captores arrastavam seu corpo para a parte externa da casa. Foi a visão de Fiolon com o rosto machucado e tendo as mãos atadas que a tirou do torpor.
– Não... não! Porque estão fazendo isso??
Aquele que a segurava apenas riu.
– É macho! – entendeu alguém dizer.  ­– Vamos levar?
– Sim, jogue na carroça... Mas esta aqui não serve. Alguém quer?
Mikayla não precisou pensar muito no que aquelas palavras significavam. Logo um daqueles seres – o bando parecia ser uma mistura de odlings e humanos quase não identificáveis – debruçou-se sobre ela rindo.
– Tire as mãos da minha esposa! – o grito ecoou pelo ar. Os seres estacaram procurando de onde vinha aquela ameaça.
Fiolon não é um guerreiro. Desde cedo foi, na medida do possível, treinado para ser um nobre. Sua ambição de futuro quando criança era ser músico, então se dedicou com afinco a isto, negligenciando as aulas de combate. Mas o destino quis que ele se tornasse um arquimago, e a partir daí precisou dedicar-se ao estudo da magia. Assim, amarrado como estava – e mesmo se não estivesse, não arriscaria uma luta corpo-a-corpo – sua única alternativa para sair daquela encrenca era apelar para a magia. O truque era simples: tornou-se invisível e deslocou sua voz para diversos locais a fim de assustar seus captores. Paus e pedras começaram a voar acertando o bando e afugentando alguns. Mikayla conseguiu se desvencilhar daquele que a segurava, correu e montou o fronial que conduzia a carroça para fugir.
– Por Meret, é um maldito truque! – gritaram atrás dela. Flechas voaram em sua direção e acertaram o fronial, que caiu, derrubando-a. Só então ela se deu conta que pegara a carroça errada: Fiolon ainda estava nas mãos de um dos bandidos, agora com a perna ferida. Alguém desconfiara do engodo e o esfaqueou e a perda de sangue desfez o feitiço.
– Acha que não conhecemos magia garoto? Nos acha tão inferiores assim? – gritou o bandido na cara de Fiolon. As pernas de Mikayla doíam por causa do tombo, mas quando conseguiu se concentrar para usar alguma magia, foi novamente imobilizada.
– Se você não fosse tão valioso, rapazinho, tiraria sua vida agora mesmo, só pelo seu abuso. Mas existem outras maneiras de te fazer sofrer. ACABEM COM ELA!
Aqueles que estavam perto de Mikayla desferiram-lhe golpes violentos. Fiolon gritou, mas seu grito foi abafado pela mordaça. As veias em sua garganta saltaram e seus olhos se arregalaram, mas estava incapaz de fazer qualquer coisa. A ira tomou conta de seu corpo, e ele só tinha olhos para o que estava acontecendo com Mikayla. E Mikayla também só tinha olhos para ele.
Foi então que tudo mudou: quando os olhares dos arquimagos se encontraram, ambos alheios à própria dor, mas totalmente cientes da dor do outro, o ódio contra aqueles malfeitores e a vontade de destruí-los dominou suas mentes. Na mata, os animais se assustaram com o o forte vendaval que surgiu repentinamente. Aquele que atacara Fiolon engoliu a gargalhada: esperava ser um novo truque, só que ao olhar para o rapaz não via mais um rapaz: via um ser de cabelos brancos e olhos sem íris. Aqueles que estavam com Mikayla se afastaram, pois ela também era um ser diferente, de olhos e cabelos completamente brancos. Também havia fúria em sua expressão.
Algo no céu brilhou e atraiu a atenção dos captores. Três círculos se formarem e se alongaram até se parecerem uma flor. Era um trílio. Um trílio dourado.

– Mas o que significa isto? – quis saber alguém. Como resposta um jato de luz acertou em cheio o seu coração e os dos demais. Em uma fração de segundos, todos os captores foram dizimados.

***


Quando despertou do transe, Fiolon se viu boiando num rio, agarrado a um tronco de árvore, com uma Mikayla desacordada em cima. A garota estava com a blusa rasgada, sendo possível ver os hematomas causados pelo espancamento. Como a correnteza estava amena, ele conseguiu alcançar a margem e tirá-los da água.
– Mika... Minha princesa, por favor, acorde! Fale comigo sim? – tentou despertá-la. A pele dela estava gelada por causa da água e como não havia algo seco para vesti-la, sentou-se com ela ao sol, retirando-lhe a blusa e as botas – ele hesitou em tirar suas calças. Também retirou a própria blusa e envolveu a garota em seu colo como uma bola, soprando-lhe as mãos e esfregando-lhe os pés, apesar do corte em sua própria perna dificultar um pouco as coisas. – Minha querida fale comigo, por favor! Meu amor, eu te proíbo de morrer e me deixar sozinho cuidando das duas terras!
– E fazer de você o viúvo mais cobiçado de Var?  Nem pensar! – gemeu Mikayla, e Fiolon respirou aliviado – Mas eu estou gostando de te ouvir me chamar de “minha princesa”, “minha querida”,”meu amor”...
– Sua bruxinha! – ele fingiu zangar-se, mas estava feliz: beijou repetidamente seu rosto e apertou-a ainda mais em um abraço, só se dando conta que isto a machucava quando ela gemeu de dor. Ele afrouxou o abraço e ficaram assim parados por um tempo até Mikayla adormecer novamente e ele, ao perceber que a temperatura dela estava equilibrada, tratou de levá-los para um local mais seguro. Achou prudente fazer uma pequena fogueira, ainda que tivessem que apagá-la quando escurecesse para não chamar a atenção no meio da noite, mas até lá o calor secaria suas roupas. A capa, de material semi-impermeável, secara enquanto ficou estendida ao sol. Ele a usou para envolver Mikayla e deitou-se ao lado dela.
– “Fomos nós?”
A pergunta invadiu a mente do rapaz, trazendo-o de volta do limiar do sono. O céu já estava  escuro; ele debruçou-se sobre a jovem e pode ver o brilho da fogueira, já fraca, refletido nos olhos dela. Estava acordada.
– “Fomos nós lá em cima, no moinho?”
–“Não sei Mika” – ele afagou-lhe a cabeça – “Não fomos treinados para usar nossos poderes ferindo os outros, ainda que saibamos que isto é possível. Mas eu acho... eu acho... que sim!”
Mikayla começou a chorar baixinho, e ele pode sentir a sua dor. Violência nunca fora o forte dos dois.
– Eu jamais permitirei que alguém lhe faça mal – sussurrou ele.
– Mas aquilo... aquilo! – Mikayla gemia nervosamente, lembrando todo o horror que vivera algumas horas atrás. Por mais que tivessem que pagar pelo que haviam feito à D. Angélica, não achava justo que alguém devesse morrer com o corpo explodindo em mil pedaços.
– Shhii, eu sei...eu sei! Mas eu não consegui pensar em outra coisa quando vi o que eles iam fazer com você.
E sim, ele sabia. Podia ver nas memórias dela o que ambos sofreram e o momento da transformação. Suas próprias imagens tornaram-se tão ameaçadoras em suas lembranças que ambos tremeram: cabelos e íris brancas somadas à expressão de cólera os levaram ao horror, mas não tanto quanto a chacina em si. O trílio no céu, símbolo de Ruwenda, não deixava dúvidas que aquilo fora obra deles. Depois do extermínio, a queda, provocada pela explosão dos círculos, cujo impacto destruiu a parte do barranco em que estavam, jogando-os no rio.
– “Eu não sei o que eu fiz!”
– “Nem eu Mika. Mas aquilo não foi natural, e não podemos ignorar os fatos:”

“Desejamos uma coisa. E ela aconteceu”



domingo, 12 de novembro de 2017

Arquimagos - Explorando Labornok

Capitulo XIII


                Havia mulheres gritando. E crianças também. Bebês. O fogo que parecia lamber as paredes era apenas uma série de fogueiras acesas para iluminar o lugar. Uma tenda? Uma caverna? Não dava para saber. As mulheres gritavam cadenciadamente, percebeu. Era um coro: havia dor, mas também preocupação. Partos coletivos. Os curandeiros estavam vestidos de negro, com máscaras. Porque não podiam deixar ver seus rostos? Um par também vestido de preto e mascarado acompanhava tudo a certa distância. Os recém-nascidos eram levados até eles. Uma espécie de seleção? Uns para esquerda, outros seguiam a direita, mas outros eram levados para outro lugar. A visão seguiu o curandeiro que levou um dos recém-nascidos. Havia urgência em carregá-lo para longe. Uma carroça esperava, outras crianças gemiam em cestas cobertas de tecido e palha.
                Não.
                Crianças não!

                Mikayla acordou sobressaltada, assustando Fiolon, que derrubou o vidro de tinta sobre as próprias anotações.
                – “Acho que tive um sonho ruim”
                – “Percebi. Mas tem certeza de que fora sonho?”
            – “Não sei... Acho que foi influencia do assunto de antes de dormir. Sonhei que mulheres estavam parindo e dentre as crianças normais havia... monstros”
                Fiolon suspirou.
               – “Pode ter sido culpa minha. Estava lendo justamente sobre como os desaparecidos criaram novas espécies. Eles usaram todo o tipo de fêmea, inclusive humanas”
            – “Cruzes!” – pensou Mikayla, mas uma recordação longínqua lhe veio à mente: mais  alguém já lhe falara sobre um lugar que faziam experiências. Um lugar de escuridão.
           
             Muitos dias já haviam se passado e eles permaneciam hospedados com D. MacAran. Trocaram a ajuda no sítio pela leitura do livro, mas não chegaram à sua metade. O velho achou um preço barato, e muitas noites se juntou a eles sobre conjecturas do que ocorrera. Fiolon compartilhou com ele toda a história da guerra entre as duas terras sob a ótica de Ruwenda, através de baladas. Só não se sentiu confortável para cantar a balada que narrava a morte da arquimaga Haramis, não por ter presenciado o fato, mas pelo nome desta não ser bem vindo àquela região. Haviam percebido isto enquanto circulavam pelas tribos: todos compartilharam a opinião de que a arquimaga abandonara o cuidado à Labornok – o que infelizmente era verdade.
                – As pessoas que vivem o dia-a-dia sentem-se muito distantes destas questões de poder. – explicou-lhes D. MacAran, quando percebeu que o povo não parecia querer exigir que os donos do poder cumprissem suas obrigações com eles. – É como o olhar de uma lagarta da terra, entendem? Elas não querem saber que há um ser humano que trabalha na terra que elas vivem, e que dependem de agentes da natureza para que a terra fique úmida ou seca: para elas a única coisa que importa é cavar, pois se ela parar para culpar os grandes das coisas, seu trabalho não termina, fica incompleto ou pior, corre o risco de não levar a comida que precisa no final do dia. Os grandes é que deveriam olhar para as minhocas e não o contrário. Mas não é assim que acontece.   
                A amiga de D. MacAran, D. Angélica, esteve lá uma tarde com as netas. Eram duas jovens bastante bonitas cujos pais trabalhavam na cidade. Tentavam convencer D. MacAran a mudar-se para a cidade com elas, pois as coisas não estavam boas nos arredores da floresta.
            – Muitos atravessam a ponte e posso vê-los do Moinho. Quando vejo algum perigo colocamos panos vermelhos no moinho...
– Porque os panos? - Fiolon quis saber.
– Dão a impressão de fogo. – disse uma das meninas. - O viajante desvia e pega o caminho do rio.
– Há algo na floresta MacAran, - prosseguiu D. Angélica -  algo muito ruim. Não haverá ninguém a quem pedirmos ajuda se algum mal nos acontecer. É um tempo de escuridão...
                De novo, Mikayla teve a sensação de que já ouvira a expressão antes, numa outra época. Ela e Fiolon acompanhavam a conversa fingindo desinteresse, mas atentos às informações. Talvez esse fosse o perigo que o sentido da terra de Mikayla lhe transmitia. Olhou para Fiolon e a mensagem foi clara: precisavam partir.

D. MacAran não escondeu lamentar a partida dos jovens, havia se afeiçoado a eles. Por alguma razão aparentemente boba, mas claramente instintiva, acreditou que eles eram herdeiros dos Desaparecidos. A sede de conhecimento que o casal tinha pelo livro era curiosa e D. MacAran ficava feliz em esclarecer suas dúvidas, relembrava-lhe a época de tutor. A partida, porém, era necessária, isso ele podia compreender. Em três dias os jovens concluíram as tarefas pendentes no sítio: consertos de cercas, limpeza da terra e trato dos animais. Fiolon lamentava não terem terminado o livro e queria crer que encontraria uma cópia do mesmo em algum lugar de Labornok.
– Acredito que outros exemplares existam sim rapazinho, pelo menos no Liceu, se não o consideraram ultrapassado. Este aqui encontra-se na família há gerações. No liceu certamente encontrarão tudo que a gente da sua idade detesta: filosofia, matemática, física, ciências...
– O senhor só pode estar brincando: é justamente o que nós amamos! – disse Mikayla.
– Vocês são os jovens mais extraordinários que já conheci!

           Despediram-se numa manhã ensolarada – não porque a arquimaga quis, realmente fazia Sol. Os froniais bastante descansados e preguiçosos, já que exercitaram pouco, demoraram a pegar o ritmo de trote aceitável, o que lhes tomou um tempo considerável pela manhã. Já avistavam a ponte quando resolveram fazer um pequeno desvio e cumprimentar D. Angélica e suas netas, tão gentis durante a visita. Encontraram o silêncio. Algo agourento invadiu suas almas, e puseram a chamar e a vasculhar o interior da casa. Nada. Apenas a bagunça de bens revirados.
– Elas foram atacadas! – Mikayla deu palavras ao que via. Do lado de fora, Fiolon esquadrinhava o local à procura de pistas quando algo respingou em seu ombro. Era viscoso e vermelho. Sangue. Mal teve tempo de olhar para o alto e o grito de Mikayla lhe atingiu: o choque fez com que compartilhassem involuntariamente a visão da arquimaga.  Das janelas do piso superior da casa, ela via lençóis brancos manchados de vermelho pendurados no moinho.

Lençóis que ocultavam os corpos enforcados de D. Angélica e suas duas netas. 



sábado, 4 de novembro de 2017

Arquimagos - Explorando Labornok

Capitulo XII 

Na companhia de D. MacAran


– Sempre morou aqui sozinho? – quis saber Fiolon, assim que terminaram a singela refeição feita de pães e sopa de adop. Estarem secos, limpos, alimentados e aquecidos foram os pequenos luxos desejados pelos arquimagos e atendidos naquela noite. D. MacAran revelou-se ser um valoroso anfitrião, e pareceu animado com sua presença, toda desconfiança inicial esvaiu-se assim que puseram os pés na casa. Era uma espécie de cabana ampliada: sala e cozinha integradas, o quarto do proprietário e uma sala de banho; a latrina ficava em um cômodo anexo. O ambiente estava suficientemente limpo e organizado, com uma rigidez militar para um velho solitário.
                – Já tive alguns empregados, mas com a crise todos se foram. Mantenho o sítio como posso, minha amiga Angélica, que mora do outro lado do moinho, vem me visitar constantemente. Antes quando algum andarilho batia em busca de trabalho e abrigo era bom, mas hoje está difícil abrir as portas...
                – Mas o senhor não tem família D. MacAran? – foi a vez de Mikayla questionar.
                – O pai do meu pai foi um soldado do reino, e meu pai foi mestre de armas. Vivíamos bem na capital, mas as coisas começaram a ficar ruins. Eu puxei um tio de minha mãe e quis ser mestre, lecionava para filhos dos nobres que queriam que seus filhos fossem cultos, uma gente do bem. Minha família e eu vínhamos para cá nos verões, mas com o tempo deixamos o sítio de lado. Quando o Liceu de Estudos em Derorguila resolveu remodelar suas disciplinas senti que já havia cumprido meu tempo ali: juntei minhas coisas e vim para cá. Já estava viúvo há algum tempo, não tivemos filhos. Minha irmã ainda mora em Derorguila com os filhos.
                Fez silêncio por alguns instantes, enquanto o velho parecia viajar nas próprias recordações. Os arquimagos respeitaram este tempo, sabe-se lá quais memórias haviam acionado em um senhor que agora vivia recluso. Um suspiro, e a conversa foi retomada:
                – Mas e vocês: o que fazem por estas bandas tão longe de suas terras? – e vendo o espanto dos jovens, continuou – Ora não fiquem assim, reconheci pelo sotaque: você – apontou para Mikayla – com certeza é de Ruwenda, mas você, não consigo decifrar de onde é.
                – Sou de Var – respondeu Fiolon, aliviado e ao mesmo tempo preocupado: as tribos pareceram não se importar com seu modo de falar, mas isso poderia ser um problema entre humanos?
                – Andarilhos. – complementou Mikayla. ­– Não temos mais terras. Caminhamos por aí em busca de conhecimento, trocando trabalho por abrigo.
                – Deveriam ter seguido outro caminho, pois aqui não há muito que se oferecer.
                – Temos nos virado bem! – contestou Mikayla.
                – Verão o que falo antes de chegarem às cidades: Labornok está entregue ao caos.
                – Mas a Cidadela controla tudo através dos regentes em Derorguila!
                – Mocinha, com todo respeito que tenho a você e que creio que você ainda tem pela sua terra eu lhe digo: Ruwenda está pouco se importando com o que acontece além das Montanhas Ohogan. Desde que me conheço por gente só querem saber de recolher impostos e tributos para enriquecerem. Não há mais segurança, uma corja de ladrões e sequestradores se espalhou por todos os lados. As tribos estão criando as suas próprias leis, e isso se altera entre desavenças com amigos e laços com inimigos de acordo com seus interesses. E ainda há essa doença esquisita que não encontram cura... É um mundo sombrio este que vieram conhecer!
                – O que quis dizer com doença esquisita? – perguntou Fiolon.
                – Não sabemos de onde começou, mas ataca somente os jovens, os homens exclusivamente. Ficam violentos e selvagens. Uma patrulha ronda por aí coletando-os, porém ouvi dizer que muitos fugiram e atacam em bandos. Não há registros de coisa igual em lugar algum. Parece até com os experimentos que os Desaparecidos fizeram antes de partirem...
                – Que experimentos? – Mikayla e Fiolon perguntaram juntos.
                D. MacAran olhou-os com curiosidade:
                – Ora, ora, dizem que saem por aí em busca de conhecimento e não sabem a história dos Desaparecidos? A História da nossa origem?
                – Mas é claro que sabemos quem são nossos antepassados! – bradou Mikayla
                – Então sabem que eles quase explodiram este mundo, certo? E arrependidos criaram as raças aborígenes?
                A guerra nuclear. Os arquimagos sabiam disto. Foi na primavera de sua civilização, seus ancestrais desenvolveram uma tecnologia riquíssima, mas isto criou desavenças, desequilibrou os polos e quase destruiu seu mundo. Aquele povo se sentiu culpado e partiu, não se sabe para onde, deixando outros seres para cuidar melhor do que eles quase acabaram. Eles sabiam que os humanos das aldeias distantes, que nada souberam daquela guerra, iriam saciar sua sede de conhecimento e curiosidade algum dia, o que os fariam migrar de suas regiões; dito e feito, milhares de anos depois os humanos novamente se espalharam pelo mundo das Três Luas e o dominaram.
                O silêncio e olhar perdido dos arquimagos deu a D. MacAran a impressão errada. O velho divertiu-se com o que considerou “expressões de assombro” e achou que aquele seria o bom momento para uma “aula”. Sentiu seu instinto de educador, há anos adormecido, despertar e espreguiçar-se. Levantou-se animado até seus aposentos, carregando um lampião consigo. O cômodo era mediano, uma cama em um canto, uma escrivaninha ao lado da porta, e prateleiras espalhadas pelas quatro paredes repletas do tesouro mais precioso para os arquimagos: livros.
                – Aqui está! – gemeu D.MacAran, ao fazer um esforço para retirar um grosso volume de uma das prateleiras. – Neste volume temos toda a pesquisa feita pelo catedrático Silas Vancour, que compilou toda história conhecida sobre nosso mundo, desde canções e anotações. É um volume raro!
                Os meninos reuniram-se fascinados ao redor do velho, maravilhados com aquelas páginas envelhecidas. Haviam nelas o conhecimento que preencheria as lacunas que eles não sabiam existir? D. MacAram abriu num trecho no meio do, que narrava justamente a partida dos Desaparecidos. Enquanto lia, a atenção dos arquimagos foi desviada para uma gravura na página, que recriava anotações encontradas junto com alguns artefatos antigos. Estava na língua dos Desaparecia, língua que Mikayla e Fiolon dominavam, e parecia também ser de domínio do autor do livro, já que o trecho destacado tratava justamente de um acordo de proteção firmado por três dos Desaparecidos, que ficariam e cuidariam para que a maldade não voltasse a enegrecer os corações dos humanos outra vez: Derby, Iriane e Binah.
– É Binah! A primeira arquimaga? – disseram os dois ao mesmo tempo, deixando D. MacAran perdido em meio a sua leitura.
– Hein? Sim, parece que a Arquimaga Binah fazia parte do grupo dos Desaparecidos que não “desapareceu”. Ela foi importante em muitos eventos ao longo da nossa história. Não diz para onde os outros dois foram...
D. MacAran bocejou, e todos perceberam que estava tarde. Mesmo assim Fiolon não resistiu e perguntou se não poderia continuar lendo o livro antes de dormir.
– Claro! E se desejar podemos conversar mais pela manhã. Mas agora perdoem um pobre velho mas preciso descansar. Boa noite!
Eles esperaram o velho se recolher para conversar mentalmente entre si.
– “Esse livro contém a história do mundo, não só de Ruwenda, Labornok e Var.” – ruminou Fiolon – “Não acha estranho que só a arquimaga de Ruwenda tenha sido citada?”
Mikayla considerou relevante a pergunta do companheiro, mas não tinha uma resposta para ela. Enquanto Fiolon corria até os seus pertences à procura de um bloco de anotações, pena e tinta, ela sentiu que era importante obterem aquele conhecimento. Seria orientações ocultas dos Senhores do Ar para complementarem seu aprendizado? Afinal, porque um livro como aquele não estava na biblioteca de nenhum dos dois palácios?
Fiolon já começara as anotações e ela foi sentar-se ao lado dele, compartilhando mentalmente aquilo que liam. Mas fora um dia longo, e logo o cansaço abateu sobre eles com força. Mikayla cambaleou para a cama feita no chão; Fiolon resistiu um pouco mais, mas acabou adormecendo com debruçado nas próprias anotações.

E desta vez, os olhos que os observavam pelas frestas das paredes de madeira não foram percebidos.



domingo, 15 de outubro de 2017

Arquimagos - Explorando Labornok

Capítulo XI


O instinto fez Fiolon despertar: uma presença não convidada estava à espreita, observando-os. O vulto, que contrastava-se com as aberturas da estrebaria, estava parado: ainda que tenha vindo lentamente, o barulho da chuva teria encoberto o som de seus passos. Como não pretendia ser pego de surpresa, Fiolon mentalizou o punhal preso em seu tornozelo e trouxe o objeto até às suas mãos, na expectativa. Fechou os olhos quando o velho acendeu um iluminador de gelo, e a luz fraca não permitiu que visse rosto do inimigo, escondido por um capuz. Fiolon ampliou a visão mental e pôde ver quando o vulto deu um passo arrastado, elevando o iluminador para ver melhor o ambiente. Ficou um tempo analisando, até que pareceu se interessar por Mikayla. Enquanto debruçava-se sobre ela, Fiolon, com um movimento rápido, apontou seu punhal para o desconhecido:
– Não ouse tocar nela! – disse baixa e friamente.
O vulto assustou-se e, atrapalhando-se com as próprias vestes, gritou e caiu, acordando froniais e Mikayla. Os animais começaram a emitir ruídos estressados enquanto a menina tentava entender o que se passava. Fiolon passou por cima dela e prendeu seu inimogo ao chão, com o punhal apertado em sua garganta.
– O que você quer??  - bradou Fiolon.
– P-por favor não me machuque! – gemeu uma voz choramingosa
Movida pelo senso de praticidade, Mikayla ateou fogo em uma tocha:  abaixo de Fiolon, um ser gordo, de grandes olhos esbugalhados e muitas rugas no rosto tremia apavoradamente.
– Porque estava aqui? O que quer?? – bradou Fiolon, demonstrando uma coragem nunca antes vistas por Mikayla.
– E-eu não... e-eu só... eu só queria saber quem estava aqui! Achei que... que fossem as bestas!
– Solte ele Fio!
Fiolon hesitou por alguns instantes antes de sair de cima de seu oponente e ir para perto de Mikayla, ainda de punhal em riste. Com um esforço que logo foi perceptível ser da idade avançada, um velho sentou-se, ainda mantendo os braços na defensiva.
– Por favor não me machuquem! Podem levar o que quiserem!
– Não queríamos nada além de abrigo. – respondeu Mikayla.
O velho, cuja cabeça parecia dominada pelo gelo eterna das montanhas, respirava com certa dificuldade. Mikayla parecia esperar que ele se recuperasse para desenvolver um diálogo, mas Fiolon, ainda sob o efeito do despertar repentino, estava impaciente. Percebendo a confusão e a insegurança que habitavam dentro dele, Mikayla enviou-lhe ondas de tranquilidade: tanto ele quanto o velho estavam em um impasse, agindo por defesa.
– Perdoe a atitude de meu primo Senhor, ele apenas nos defendia.
– Eu entendo... – foi dizendo o velho, lentamente – No mundo em que vivemos ações sobrepõem-se á razão.
– O que pretendia aproximando-se tão sorrateiramente? – quis saber Fiolon, ainda desconfiado.
O velho analisou-os por um tempo antes de responder.
– Vocês são jovens – murmurou o velho, parecendo mais para sai do que para os arquimagos. Parecia que agora, baixada um pouco a guarda, ele realmente os via – eu pensei em surpreendê-los antes que pudessem me atacar...
– Achei que as regras de hospedagem valessem nestas terras também – disse Mikayla, um pouco assustada com o que não foi dito mas concluído na fala daquele estranho: havia implicações de medo e perigo a cada respiração dele. – Não vamos incomodá-lo mais: iremos recolher nossas coisas e partir.
Fiolon olhou admirado para ela: ainda chovia bastante lá fora, mas Mikayla sabia que não era por isso que ele a indagava com o olhar. Mikayla sempre fora a mais impetuosa e questionadora dos dois, era de se esperar, no mínimo, muitas perguntas.
– “Não vamos piorar a situação” – ecoou o pensamento na mente do arquimago.
Ela pegou as bolsas e juntou suas coisas para partir. Fiolon mantinha o punhal erguido diante do velho, vigilante, mas vê-lo esfregando o pescoço com mãos decrépitas somado ao esfriamento da situação fez com que se sentisse culpado por tê-lo machucado. Afinal o velho só defendia seu lar. Antes de saírem, Fiolon lhe entregou um emplastro de ervas.
– Use isto para aliviar a dor, e como recompensa do que quer que tenhamos lhe causado.
O Velho ainda olhava para o emplastro enquanto eles retiravam os animais. Cobrindo-se com as capas, os arquimagos saíram para a chuva. Já estavam próximo aos portões quando gritos roucos os chamaram de volta. .
– Esperem, esperem! Há muito tempo que não chamam a minha atenção a respeito das velhas regras. Muita coisa mudou por aqui nos últimos anos, e me fizeram esquecê-las. Eu não serei conhecido como um mal anfitrião, então por favor fiquem.
O jovem casal entreolhou-se: precisavam descansar, mas acima de tudo, poderiam confiar?
O Velho, percebendo a relutância caminhou vacilante até eles, mas o bambear de seu corpo fez com que escorregasse e caísse: Fiolon socorreu-o
– Ah.. nada como uma mão amiga! Acho que tivemos uma série de mal-entendidos, rapazinho: eu sou D. MacAran e será um prazer hospedar vocês em meu lar.