sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Arquimagos - Casamento de Arquimagos

Capítulo VIII


A Cidade de Tas amanheceu bastante movimentada. A primavera estava em seus dias derradeiros, o que significava tempos de chuva a caminho; assim eram os verões em Ruwenda, quentes e bastante úmidos. Chovia quase todos os dias no meio da tarde, o que tornava o trabalho dos ambulantes e feirantes quase impraticável, por isso desesperavam-se para eliminar o maior número de mercadorias possíveis, principalmente as perecíveis.
                Aquela movimentação toda encantava Mikayla. Achou que estava com repulsa a multidões quando se incomodara com os nobres no castelo, mas daquela multidão ela gostava. Há dias ela e Fiolon estavam navegando rio abaixo e aquele fora o primeiro porto em que desembarcaram. Levavam consigo pouquíssimas provisões – o restante de seus pertences seguiria de barco já que não havia estradas decentes para transitar com grandes volumes entre Ruwenda e Var: um grande desfiladeiro separava a Cidade de Tass da Floresta Tassaleyo e o caminho por ali era no estilo lá-vai-um.  Assim, ao invés de dar a volta necessária para chegar à parte menos elevada da fronteira (quase adentrando o Reino de Zinora) juntamente com os seus bens, os arquimagos decidiram descer o desfiladeiro. Fiolon tinha pressa de apresentar a sua moradia oficial em Let à princesa. Somente dois guardas acompanhavam o casal, que não queria se passar por nobres; e uma vez que seus rostos não eram tão conhecidos, misturavam-se facilmente entre o povo humano e as tribos odlings.
                Da janela de seu quarto, localizado no segundo andar de uma hospedaria para comerciantes, Mikayla olhava o ir e vir do povo nas vielas e nas ruas. Os humanos e as tribos circulavam pacificamente entre si e aquela mistura dava-lhe paz. Seus dezoito anos de vida dividiram-se em vida na corte, idas para os pântanos a fim de explorar e, nos últimos seis anos, no convívio com o gelo das montanhas. As viagens às cidades como substituta da arquimaga ocorriam á noite, quando os povos estavam dormindo, por isso o fascínio ao estar entre eles depois de tantos anos. Divertia-se com aquela intensidade: aspirou fundo para captar os cheiros que vinham da rua... e desmaiou!
                Voltou a si abrindo os olhos devagar, tentando reconhecer o ambiente a sua volta. Estava na cama, e uma voz estranha falava no vestíbulo.
                – Ela ficará bem. Só precisa descansar e alimentar-se melhor. O senhor disse que vieram das montanhas? Bem a diferença de pressão no ar costuma afetar que está à caminho de lá não o contrário...
                – Já estamos nas partes baixas há bastante tempo...
             – Temo realmente ser o principio de uma subnutrição, ela é muito magra para a idade que tem... Quantos anos disse?
– Dezoito.
– Dezoito, certo...
“Céus, eu devo ter desmaiado feio para Fiolon chamar um curandeiro”
“Muito feio”, a voz de Fiolon penetrou em sua mente. Ele parecia zangado e ao mesmo tempo aliviado. Não demorou muito estava sentado na cama ao lado de Mikayla, querendo saber como ela se sentia.
– Bem, eu acho... O que aconteceu comigo?
– Eu senti algo estranho, uma ausência. Vim vê-la e a encontrei jogada no chão de olhos abertos. Eu me desesperei porque não conseguia alcançar seus pensamentos...Agora consigo ouvir você bem, e a sensação de nada passou... Foi alguma coisa com a terra?
– Oh! Pelos Senhores do ar, a terra... – Mikayla se deu conta de que desde que chegara a Cidadela não vistoriava a terra. Sentia as variações, mas não focava nelas, como aprendera a fazer. Culpou-se internamente com tamanha irresponsabilidade.
– Você esqueceu... – murmurou Fiolon, que lera a sua mente. – Tudo bem, faremos a vistoria juntos, quando você estiver mais fortalecida. Se houver algum problema em Laboruwenda uma arquimaga fraca não vai ajudar...
Porém os pensamentos de Mikayla se tornaram mais preocupantes:
– Fiolon, eu não estou morrendo, estou? Eu não posso estar: acabei de me tornar arquimaga, sou jovem, forte, saudável!
– Eeeii... De onde veio tamanha tolice? – ele a abraçou. Em seus pensamentos as lembranças das síncopes da Arquimaga Haramis passaram instantaneamente – Não é o mesmo com você está bem? Acredito mesmo que tenha sido pela mudança de ares.
– Acabamos de nos casar...
– E permaneceremos assim por um longo tempo!
Ficaram um longo tempo abraçados, cada um com suas preocupações próprias em torno do possível mal que a terra estivesse reclamando. Fiolon conectou-se a Var, tentando encontrar alguma informação a partir dali, mas o problema certamente era no país em que se encontrava. Alguém bateu na porta, e ele lembrou-se que os guardas que os acompanhavam aguardavam notícias de Mikayla e foi atendê-los, informando que a princesa se encontrava bem, porém adiariam a viajem em um ou dois dias. 
Assim que se viu sozinha Mikayla não perdeu tempo: estendeu os braços e uniu-se à terra.
Como um pássaro que atravessa os ares assim era a visão da arquimaga ao vistoriar suas terras. Começou de onde estava, da Cidade de Tass, e avançou até as fronteiras de Var, percorrendo toda a floresta Tassaleyo. De lá retrocedeu até a Cidadela e partiu para os pântanos Verde, Negro e Labirinto, onde viu os habitantes nyssomus. Passou pelas ruínas dos Desaparecidos, onde encontrara o colar que ela e Fiolon usam para se comunicar a longas distâncias, e avançou para as Montanhas Ohogan, eternamente cobertas de gelo. No monte Brom, avistou Enya e alguns empregados limpando o pátio para evitar que a neve cobrisse as placas solares das quais ele era feito e que sem sua energia grande parte dos artefatos tecnológicos da torre deixavam de funcionar; passou pelo Monte Gidris e seu coração estremeceu ao ver as ruínas do Templo de Merrit, destruído por Haramis, e finalmente, o Monte Brom, onde habitava seu amigo, o abutre gigante Olho vermelho, finalizava a vistoria por toda parte Ruwendiana.
“Até aqui tudo bem”, pensou Mikayla. No entanto, quando ultrapassou a antiga fronteira entre Ruwenda e Labornok sentiu um baque muito forte e por pouco não tornou a desmaiar; algo, no entanto, a manteve firme. “Então aqui é o problema!”. Ela retornou devagar para o seu próprio corpo e ao chegar à Tass sentiu a presença que a ajudara a manter-se firme: ainda semiconsciente estendeu uma das mãos para aquela presença e pode sentir o imenso carinho que o Lorde Branco de Var lhe dispensava.
“Porque não me esperou?” Ele quis saber, tão logo as barreiras impostas por Mikayla enfraqueceram.
“Sou a Arquimaga de dois reinos; estive prestes a falhar com eles e preciso reparar isto”
“Podemos fazer isto juntos, você sabe!”
“Sim, eu sei, mas também quero fazer algo por mim mesma. Não poderei depender de você para sempre. Ainda não aprendi a controlar e entender os anseios da minha terra tanto quanto você compreende Var.”
“Eu temo que algo te aconteça”
Mikayla apertou de leve as mãos do marido. Quando abriu os olhos, plenamente consciente em seu corpo, foi recebida por um sorriso amável.
– Precisamos voltar para a torre.
– Algum problema com Ruwenda?
– Não, estas terras estão bem. Preciso me preparar para explorar Labornok.
O sorriso amável desapareceu.   


Na clareira, o grupo se reunia sob a luz do Luar. A fogueira brilhante tocava o céu, aquecendo aqueles que dançavam a sua volta. Riam e brincavam, embriagados pelo néctar da bebida ardente que queimava a garganta e lhes davam uma sensação de paz e felicidade. Sentiam-se livres, como há muito tempo não se sentiam. Seres mascarados juntaram-se a eles naquela estranha dança. Alguns ficaram hipnotizados; outros, mal repararam. De um ponto afastado, porém alto e que lhe permitia observar toda a movimentação, um par coberto com pele lupina observava. Quando todos mascarados dançavam acompanhados, aquele que tinha a pele lupina mais escura os braços, dando o sinal. Lá embaixo, aqueles em volta da fogueira que se encantaram com os seres mascarados foram conduzidos para o interior da floresta, enquanto o fogo crepitava alto e os tambores ressoavam. 


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Hiato

Aquela sequencia de duas vogais pertencentes a sílabas separadas de uma palavra tem como nome o mesmo significado de lacuna, pausa. Ás vezes uma pausa muito grande, sem nenhuma perspectiva de continuidade.

Estou com um hiato aqui, na continuidade da história dos arquimagos: não que não tenhamos histórias para apresentar, porém ela tomou dois caminhos que no momento não decidi ainda qual apresentar a vocês primeiro!! Enquanto alguns escritores como o já renomado Stephen King simplesmente deixam as idéias fluírem, outros preferem seguir um roteiro previamente elaborado, passo a passo. E aqui estou no meio deste caminho: a história foi desenvolvida livremente, no entanto ao ser apresentada aqui neste universo suas edições e desenvolvimento de personagens, ela começou a se tornar "uma outra história". E aí foi engolida pelo Tempo - este poderoso ser que nada mais faz do que simplesmente passar, porém sua passagem deixa marcas poderosas e distâncias por vezes infinitas.

Seguirei com a história conforme planejada inicialmente, ainda que hajam mudanças neste caminhar. Então, nas próximas semanas estejam prontos para os próximos capítulos de Arquimagos!

E se quiserem dar suas opiniões sobre as histórias já postadas aqui sempre serão bem vindos!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Arquimagos - Casamento de Arquimagos


Fanfic baseada na obra "a Senhora do Trílio"  de Marion Zimmer Bradley

Capítulo VII


O crepúsculo avançava a oeste de Laboruwenda, revelando os traços finos da chuva de meteoros provocada pela passagem do cometa. Fiolon gostava daquela visão, ainda que tecnicamente não estivesse olhando para ela. Sua mente estava em Var, vasculhando cada milímetro do território do qual era responsável. As tribos estavam em paz, assim como o manejo florestal seguia conforme suas ordens. As cheias do Grande Mutar começariam em breve; suas nascentes eram oriundas das Montanhas Ohogan, do lado ruwendiano, cujo degelo já dera início, e segundo suas orientações algumas tribos ribeirinhas já estavam se preparando para o período alagadiço. O cio dos animais primaveris estava entrando em ápice, o que o perturbava um pouco; ainda que não estivesse plenamente amadurecido, seu corpo  conhecia o furor que as tensões sexuais provocavam. Sua ligação com a terra já fora mais forte, deixando-o desconfortável nos primeiros anos como arquimago: aprender a desligar-se foi fundamental.
Quando terminou sua vistoria mental o céu já era de um matiz arroxeado. Os traços do cometa no céu já eram escassos, vinte dias haviam se passado e ainda que as previsões astronômicas indicassem que o fenômeno duraria um ciclo trilunar, aquela era a última noite que o arquimago poderia vê-lo das sacadas do palácio da Cidadela: na manhã seguinte partiriam para seu ducado em Let. Haveria algumas mudanças em sua rotina, agora que Mikayla poderia ir e vir com ele, livre da supervisão da falecida arquimaga. Ele não precisaria ficar sonhando alto, desejando algo que estava distante e que parecia quase impossível de se ter. Agora, nas pausas de suas vistorias, poderiam voltar-se ao que sempre fizeram bem: pesquisar e explorar.
 Fiolon sentiu um ligeiro desconforto quando sua mente se aproximou das fronteiras de Laboruwenda. Há tempos não sentia um arrepio como aquele, e sentiu-se instigado a avançar mais, porém aquele era o território de Mikayla, e avançar seria falta de respeito.
–Sonhando acordado, meu marido? – Mikayla aproximou-se. O cheiro de alfazema que exalava do banho recém-tomado inebriou-o. Estendeu os braços para que ela se aproximasse.
– Iremos para Var amanhã, mais uma etapa em nossa nova vida. Como está se sentindo?
– Agradecendo aos senhores do ar por sair daqui! – bufou ela – Não aguento mais a minha família! A vida deles é tão... fútil! As damas só costuram e cantam e leem – o que não é ruim, mas... é só isto! Não há aventura. A maior emoção delas é fofocar sobre a vida de alguém! Gostaria de ter ido embora antes...
Fiolon suspirou, mantendo a placidez que lhe era tão característica:
– Mika, já parou para pensar que não fazemos a mínima ideia de quando retornaremos aqui nas condições de Princesa e Duque? Não sabemos quando poderemos abraçar os nossos familiares outra vez; essa pode ser nossa última oportunidade.
– Vivemos os últimos anos afastados deles e sequer procuraram por nós! – resmungou ela.
– Sim eu sei, mas segundo eles estávamos em segurança! Essas pessoas podem ter sido negligentes conosco, mas nunca nos faltaram abrigo e alimento neste lar. E a vida deles, de tudo que está aqui neste momento, irá perecer muito antes da nossa. O que você prefere: dar o mínimo de atenção agora ou lamentar não ter aproveitado esta oportunidade daqui a uma centena de anos?

Mikayla sentiu-se culpada por suas críticas e por seu egoísmo: agora sentia-se terrível! Fiolon a puxou contra si e beijou-lhe a testa, rindo da confusão que se instalou na mente da Arquimaga. Ela sempre fora cabeça dura, não media palavras muito menos as consequências dos seus atos. Cabia à ele as ponderações necessárias para fazê-la enxergar por outros ângulos. E nesta discussão acabou esquecendo-se de perguntar sobre a  estranha sensação que sentira durante a sua vistoria.

– Você meu querido, sempre tão sensato! Perde-se a vontade de trocar qualquer veneno com você!
– Nunca foi meu forte, você sempre soube! Aliás, nossa castidade ainda é assunto da corte?
– Nada! Seu plano foi perfeito!

Fiolon sorriu, lembrando o acontecido: na manhã seguinte a noite de núpcias o casal de adultos presos em corpos de criança foi despertado por batidas um pouco mais austeras na porta. Perceberam que estava bem tarde, mas o cansaço da festa ainda permanecia em seus corpos e eles desejavam continuar na cama; as batidas insistentes, no entanto, não deixavam.
– Não abra a porta agora! – murmurou Fiolon, assim que viu Mikayla intentando em fazê-lo, procurando em algumas gavetas até encontrar um objeto pontiagudo o suficiente com o qual pudesse cortar a palma da mão.
– O que está fazendo?? –Mikayla perguntou, assustada. O servo ou seja lá quem fosse, havia desistido.
– Estou complementando nossa farsa. Assim que sairmos deste quarto virão bisbilhotar a nossa cama.
Mikayla ficou horrorizada:
– Acha que ousariam entrar sem estarmos aqui?
– Já entraram conosco aqui: ou você acha que a bandeja de café da manhã veio por mágica? – e vendo que Mikayla permanecia escandalizada, tentou tranquilizá-la – Você passou muito tempo presa na torre, meu amor, esqueceu como os servos são treinados para serem silenciosos e invisíveis pelos palácios. Exceto claro, este que com certeza foi enviado para nos acordar...
– Ou saber se estamos vivos!
Ambos riram, mas Fiolon permaneceu concentrado no que fazia. Ao pressionar a mão cortada na cama, Mikayla finalmente entendeu suas intenções. Corou.
– Eu não quero mais ninguém questionando nossa virgindade – ele disse percebendo seu constrangimento.
– Espero que isto não o machuque... – murmurou ela, ainda sem saber direito o que dizer. Referia-se ao ato de Fiolon ter-se cortado, mas ele entendeu de outra forma:
– A mim? Só agora, ao me cortar... – ele tomou-lhe a frente da camisola e também a sujou, murmurando um encantamento de cicatrização para o ferimento logo em seguida. Admirava a perfeição de seu trabalho quando notou que Mikayla ainda estava acanhada – Ei, não se preocupe: farei o máximo para não provocar nenhum incômodo quando realmente acontecer está bem? Serei tão inexperiente quanto você, e poderemos rir de nossas trapalhadas depois: só isto será o suficiente para ser memorável! – E percebendo que ela sorria, beijou-lhe a face como quem rouba a demonstração deste afeto. – Agora vista um roupão e deixe as servas verem isto ao te trocarem.
– Quando você ficou tão prático?

O plano deu certo como o mago previra: antes do cair da tarde todos no castelo sabiam como fora encontrado o leito nupcial – a história incluía seus devidos acréscimos dependendo de quem a contava. Os reis, especialmente a Rainha de Laboruwenda, ficaram satisfeitos quando a fofoca chegou até os seus ouvidos: aquilo selava a palavra dada pelo casal de que não cometeram imoralidades enquanto estavam sobre a tutela da Arquimaga. Não que isto, de fato, fizesse diferença em uma corte, mas era necessário que tais atos permanecessem sempre por trás das paredes ou debaixo dos lençóis onde ocorriam. 



segunda-feira, 29 de maio de 2017

Arquimagos - Casamento de Arquimagos

Fanfic baseada na obra literária A Senhora do Trílio  de Marion Zimmer Bradley


Capítulo VI - A festa



A recepção ocorreu tranquilamente, para alívio dos regentes das duas terras, fartos de surpresas. A conduta de Mikayla e Fiolon durante a cerimônia ainda era comentada pelas mesas, e o fenômeno das estrelas também – que ainda foi vista tão logo o Sol se pôs. Quando questionado pelos magos, Fiolon deu a mesma resposta que dera a MIkayla; tudo era uma questão de estudo. Astrônomos antigos calcularam que um cometa passaria próximo do planeta e sua cauda provocaria uma chuva de meteoros: utilizou seus poderes para que parte deles projetasse a sombra no sol e outra parte ficasse suspensa tempo suficiente para formular a frase.
                – Qualquer mago com um pouco de dedicação conseguiria fazer – finalizou, deixando alguns entre constrangidos e enfurecidos.
                Ainda que tudo corresse bem, com o passar das horas Mikayla começou a sentir-se sufocada no meio de tantas pessoas que a felicitavam. Circulou alguns momentos com Fiolon, mas quando as formalidades foram encerradas, viu-se conduzida pela mãe para (re)conhecer os nobres presentes, e a partir de então não conseguira uma pausa sequer, já que toda hora cumprimentava um Lorde não-sei-de-onde, um Duque não-se-sabe-quem ou um Conde de-não-sei-que-lá.
                “– Passei tantos anos isolada na torre, que agora não consigo lidar com multidões” – pensou consigo mesma.
                ”– Ora, não foram tantos anos nem um completo isolamento!” – ecoou um comentário em sua mente. Mikayla sorriu para as damas que conversavam com ela sobre as maravilhas da vida a dois, e correu os olhos pelo salão à procura do dono do comentário. Fiolon encontrava-se em uma mesa distante, conversando com alguns duques do reino de Raktum. No instante em que seu olhar o encontrou, seu colar mágico vibrou e ele também mirou em sua direção, sorrindo.
                “– Pare de ouvir meus pensamentos!”
                “– É você quem não os bloqueia de maneira adequada!” – ele respondeu, enquanto ria com os demais duques de uma piada ordinária que haviam acabado de contar. “- Quer se retirar?”
                “– Acho que suporto mais um pouco!”
                Eles tornaram a trocar olhares e Fiolon estendeu a taça que trazia consigo, fazendo um brinde á distância. Mikayla fez o mesmo, entre as risadinhas daquelas que estavam consigo e que observavam a troca de olhares do casal.
                – Então é verdade o que dizem? – uma das damas perguntou
                – O que é verdade? O que dizem? – Mikayla quis saber, focando-as.
                – Que vocês se uniram antes do casamento?
                O rosto de Mikayla transfigurou-se, tornando-se vermelho de fúria. As mulheres que estavam com elas repreenderam a outra pelo comentário indiscreto, mas pareceram tão curiosas quanto. Mikayla analisou-as de cima abaixo: quem eram aquelas mulheres que invadiam sua intimidade?
                “Minhas noras!”, lembrou-se.
                Forçou um sorriso:
                – Sabem, fico impressionada com a quantidade de fofocas acerca da vida da pessoas no palácio, e é claro não me surpreenderia ter meu nome ou do meu marido rolando entre elas – e fingindo prestar atenção no líquido que bebia continuou – Eu só acharia arriscado ficar dando ouvidos à tais assuntos, as pessoas mencionadas podem se aborrecer, e quem sabe o que podem fazer um mago poderoso, ou uma ex-aprendiz de Arquimaga?
                As mulheres engoliram em seco, enquanto Mikayla se retirava graciosamente da companhia delas.
                – Ela acabou de me ameaçar? – perguntou a jovem nora indiscreta. Mikayla, que ainda estava próxima, não hesitou em responder.
                – Claro que não! – disse com um sorriso sarcástico - Eu jamais ameaçaria alguém no dia do meu casamento!  

                A festa durou até a madrugada, mas ao contrário do que esperavam, o casal não ficou até o fim. O cansaço abateu-lhes de maneira desesperadora, então optaram por uma retirada discreta - mesmo que não o fizessem, os convidados já estavam embriagados demais para notar. Cada um foi até seus aposentos particulares providenciar a substituição de seus trajes de cerimônia pelas vestimentas nupciais. As servas tiveram um trabalho extra para desmanchar as tranças de Mikayla uma vez que as flores engancharam-se em seus cabelos; quando terminaram, a jovem já não esperava mais encontrar seu marido acordado.

                – Você está linda! – disse Fiolon, assim que a viu entrar no quarto - Linda, linda, linda e agora é só minha! Ninguém poderá tirá-la de mim!
                – Não esqueça que sou da terra também! – respondeu Mikayla, fechando a porta atrás de si.
                – Somos! – ele completou, aproximando-se e beijando-lhe a testa.
                Uma sombra baixou os olhos de Mikayla, enquanto caminhavam em direção à cama.
                – O que houve?
              – Eu não estou linda Fio... tudo isso é charme. – ela retirou a magia, e os traços de criança voltaram a aparecer em seu rosto. – Vê?
                – Eu vejo a minha Mikayla, a Dama Branca, Arquimaga de Laboruwenda, e acima de tudo, aquela a quem escolhi amar desde os sete anos!
                – Mas ainda uma criança Fio... – ela disse, abraçando-o – As minhas noras insinuaram...
            – Eu ouvi o que aquela idiota comentou, mas, meu amor, quem se importa? É bom que pensem que dormimos antes, assim ninguém duvidará da consumação do nosso casamento! Ninguém precisa saber que ainda não somos formados, é o preço que pagamos em troca de zelar pelas terras. Não podemos fazer o que casais normais fazem na noite de núpcias, não agora, mas um dia poderemos. De tudo que nos aconteceu, o melhor ainda é permanecemos lado a lado, como sempre foi!
                – Nem Haramis pode prever esta: dois arquimagos pelo preço de um! – comentou ela, com a alegria voltando a iluminar seu rosto
                – Talvez ela tenha previsto, mas não compreendeu os sinais de maneira adequada. Mestre Uzum me contou na época que nós dois aparecemos na visão dela, nós dois! Ainda que não nos desgrudássemos, haviam momentos em que ficávamos sós, você seria vista sozinha.
                – Nunca soube disto... será?
            – É uma suposição... Eu nunca seria arquimago de Var se Haramis não tivesse nos sequestrado juntos e eu tivesse ficado doente, ou se eu não tivesse feito nevar na cidadela enquanto você aprendia feitiçaria do tempo...
                – ... ela não teria vindo pra cá e tentado nos separar com aquele feitiço horrível...
                – ... não teria ficado doente, o que possibilitou minha ida para a torre...
                –... e estudarmos juntos com Uzun.
                Eles ficaram em silêncio, relembrando a época em que tudo era motivo para que tentassem se comunicar. Eram crianças que queriam brincar juntos e a arquimaga má não queria deixar. Mas será que era isso que a terra queria?
                – São muitos “se’s”... – murmurou Mikayla.
                – E agora estamos aqui, com um futuro melhor do que tínhamos naquela época – ele riu.
                Mikayla olhou para Fiolon. Enquanto conversavam o charme também usado por ele se desfez, e o rosto imberbe exibiu o menino de catorze anos que ele também era fisicamente. Ela ficou satisfeita com isto: seu problema não era o retardo em seu próprio amadurecimento físico, mas sim que ele amadurecesse primeiro que ela.





domingo, 21 de maio de 2017

Arquimagos - Casamento de Arquimagos

Fanfic baseada no romance "A Senhora do Trílio" de Marion Zimmer Bradley.


Capítulo V - A cerimônia

O salão onde a cerimônia de casamento se realizaria estava abarrotado. Guirlandas de flores do trílio, símbolo da terra e da casa real estavam em todas as colunas, finalizados por faixas verdes-musgo, a cor favorita de Mikayla, por lhe lembrar dos pântanos. Não estava frio, mas pequenas pedras aquecidas estavam espalhadas pelo lugar, a fim de diminuir a umidade. Ainda que os janelões abertos dessem para jardins reais, a umidade local e o grande número de pessoas reunidas no lugar aumentavam a sensação de calor. Fora que arrumar os nobres por ordem de título e afinidade era uma tarefa árdua para o mestre de cerimônias, pois não adiantava ter sido o primeiro a chegar se seu título era o mais baixo. Isso provocava constantes reacomodações, já que muitos nobres resolveram ir ao evento na última hora, de acordo com suas vontades. Foi preciso uma intervenção da Rainha, determinando que, a partir daquele momento, quem chegasse teria que se contentar com lugares nos fundos do salão. E pediu que os guardas reais contivessem qualquer convidado que tentasse fazer escândalo.
Os noivos não atrasaram. Após a entrada da família real de Laboruwenda, incluindo os reis, seus seis filhos e seus respectivos companheiros, Mikayla entrou no salão, pajeada por duas de suas sobrinhas. Seu vestido era de um tom esverdeado claro, com rendas floridas e mangas compridas que cobriam as costas da suas mãos. Havia um decote na parte de trás, onde seus cabelos vermelhos, presos em uma longa trança enfeitada com flores do campo, impediam de deixar suas costas totalmente expostas. Quando chegou no altar, sentou-se na cadeira de espaldar alto, feita de madeira e cravejada de pedras, que estava entre os seus pais: era o lugar da noiva.
Todos a postos, foi anunciada a entrada do Rei de Var, que faria o papel dos pais do noivo. Quando Fiolon entrou, Mikayla prendeu a respiração: a imagem que lhe roubara de sua visão do espelho não fazia jus a beleza dele. Nem revelou a barba aparada que ele ostentava! Mikayla achou aquilo estranho e segurou o riso para não estragar a cerimônia. Aparentemente Fiolon também fez uso do charme para parecer mais velho aos olhos de todos. Postou-se ao lado do Rei de var, para que este fizesse a declaração de costume:
– Reis de Laboruwenda, estou aqui para pedir lhes que concedam a mão de vossa filha ao meu tão amado sobrinho, Lorde Fiolon de Var. Ele é um rapaz próspero, possui um ducado em Let e lida habilmente com extração de madeira em meu Reino. Possui conhecimento dos sábios e tenho certeza que será um bom marido para vossa filha tão querida, a Princesa Mikayla de Laboruwenda.
– Rei de Var – começou o pai de Mikayla – é com muita alegria que o recebo em meu reino para esta cerimônia. Considero tua intervenção, mas agora quero ouvir do rapaz. Diga-me Lorde Fiolon de Var, Duque de Let: porque quer a mão da minha filha?
Toda aquela ladainha era conhecida de quaisquer noivos daquelas terras: primeiro alguém apresenta o noivo ao pai da noiva, enaltecendo suas qualidades, e depois o pai da noiva (que há muito tempo sabia das qualidades do futuro genro!) pediae que este enalteça as qualidades da mulher que ele mal conheceu – isso segundo a mente de Mikayla. O discurso do noivo costumava ser uma bajulação sem fim, e Mikayla já começava a achar a cerimônia tediosa.
– Majestade, é com todo respeito que venho até vós pedir a mão da princesa Mikayla em casamento. Conheço-a desde minha tenra infância e a amo desde então. Ela é, sempre foi e sempre será minha melhor amiga e objeto principal de meu afeto (e aqui Mikayla esqueceu todo o tédio!). Amo a sua sabedoria e a sua impaciência, a sua coragem e o seu destemor. Mas acima de tudo, eu a amo porque ela faz parte de mim: já não sei mais quando sou eu ou quando sou Mikayla pois nossos pensamentos se completam. Somos dois e somos um. - Fiolon fixara o olhar em Mikayla ao dizer aquelas últimas frases. Por tudo que vivenciaram juntos, aquela era uma verdade absoluta. – Posso lhes assegurar majestades – continuou ele, desviando o olhar dela e direcionando aos pais de Mikayla e seu tio – que se não for de vosso agrado a nossa união, sou capaz de sequestrá-la e levá-la comigo para sempre!
Exclamações de espanto foram ouvidas da plateia; afirmações deste tipo não eram consideradas respeitosas diante da formalidade da cerimônia. Fiolon piscou para Mikayla, que mantinha um sorriso de ponta a ponta no rosto, enquanto o Rei de Var estava pasmo:
– Fiolon! Mas que afirmação mais desnecessária a se fazer neste momento! Peça desculpas ao Rei!
Antes que Fiolon abrisse a boca, a Rainha interveio:
– Não é necessário majestades... conheço muito bem os meus “filhos” e Fiolon tornou-se um deles quando foi abrigado por mim aqui neste reino. Sabemos que não falou por mal, apenas quis expressar, de maneira “muito equivocada”, o apreço que tem pela princesa.
Risinhos abafados ecoaram pela plateia. Fiolon começou a se sentir desconfortável com a fúria que via nos olhos do Rei de Laboruwenda pela descortesia. Mas estava feito, e o Rei, ainda que vermelho, bufou um “humpft” e assentiu, voltando às formalidades.
– Cabe a última palavra á minha filha. Princesa Mikayla, é do seu interesse desposar Lorde Fiolon de Var, Duque de Let?
Mikayla apressou-se em responder:
– Ora papai que pergunta mais idiota: é claro que me caso com Fiolon! – outro espanto entre os convidados. - Nem seria necessário ele me sequestrar pois eu fugiria com ele sem pensar duas vezes!!
Desta vez todos aplaudiram a espontaneidade dos noivos.
– Vê-se que não há como ser contra tal união, então eu o aceito Lorde Fiolon de Var, Duque de Let como meu genro!
Mais palmas explodiram pelo salão. Fiolon estendeu as mãos para Mikayla, outra coisa fora do protocolo. Ela questionou-o mentalmente, percebendo suas mãos frias de nervosismo e ele simplesmente sorriu:
– Vem comigo, será uma surpresa!
 Mikayla pulou do altar e juntos seguiram correndo pelo meio do salão em direção aos jardins sobre os gritos de “Voltem aqui!!” do Rei. A Rainha a esta altura já havia se jogado em seu trono, não tendo mais com o que se surpreender. “Porque eles têm que estragar tudo?” queixou-se. Aquele seria o momento em que os noivos declamariam seus votos; ao invés disto, convidaram todos para segui-los até os jardins. Lá, Fiolon descalçou os sapatos e pediu que Mikayla fizesse o mesmo. Tomando as mãos da princesa, disse com afinco:
– Princesa Mikayla, filha legítima de Laboruwenda: por esta terra que pisamos e que dá a vida, pela luz do nosso Sol invicto e das três luas, pelo sangue que corre em minhas veias e pelo ar que eu respiro eu juro: serei teu até o dia de minha morte, e na minha vida não haverá ninguém além de ti!
 – Mas que raio de juramento é este? – sussurrou o Rei para a Rainha
– Eu não sei, mas é o mais lindo que eu já ouvi! – ela respondeu. De fato ainda tinha com o que se surpreender com aqueles dois.
Mikayla encontrava-se tão extasiada com os votos que acabara de ouvir que esqueceu-se de que deveria recitar os seus votos. Havia decorado as palavras usuais, mas diante da originalidade de Fiolon, sentiu-se livre das formalidades; após um “é a sua vez!” sussurrado em sua mente pelo rapaz, declarou:
– Lorde Fiolon de Var, Duque de Let, meu Lorde... – e calou-se, pois por pouco revelaria a condição de Fiolon como arquimago ao chamá-lo de “Lorde Branco” – Dono do meu coração. Se conjurou o vosso amor pelas coisas sagradas deste reino, eu também juro pela terra abaixo de meus pés, pelo sangue que corre em minhas veias, pelo Sol que ilumina nossos dias e pelo ar que eu respiro, que serei tua até o dia de minha morte, e no que vier além dela. Não haverá homem algum além de ti.
Fiolon tomou Mikayla nos braços e a beijou. Palmas e aclamações de felicitações foram ouvidas de todos os cantos. O casamento estava feito finalmente, mas ainda não havia terminado: de repente tudo escureceu. Algo cobriu o sol e a penumbra gerada permitiu que as estrelas aparecessem.
–Não está cedo demais para anoitecer? – perguntou alguém
“–O que está acontecendo Fiolon? Alguma magia das trevas? Porque eu juro que fiquei calma e não mexi mais com a terra!”
      "– Não se preocupe” – ele respondeu-lhe sorrindo – “Este é meu presente para você. Apenas observe”
      Ele apontou para a direção do nascer do sol e milhares de pontos de luz começaram a riscar o céu. Eram meteoritos, uma chuva deles. Alguém gritou que era o fim do mundo, e muitos correram para se proteger, antes de concluírem que era um efeito meteorológico. Os magos presentes ficaram intrigados: conheciam o fenômeno, mas nunca presenciaram fora das habituais horas de escuridão.
                – Continue olhando! – Fiolon sussurrou.
                À leste, as estrelas cadentes começaram a estacar no céu, tomando forma de palavras, para a maravilha daqueles que o assistiam. “Mikayla e Fiolon para sempre!” foi lido por todo o céu de Laboruwenda e nas terras atingidas pela escuridão do sol provocada pelo Arquimago de Var.
                Mikayla emocionada, cobriu o marido de beijos
                – Como foi que fez isto?? Vai ter que me ensinar!
       Quando clareou, muitos ainda estavam bestificados. Ainda que alguns, especialmente os de Var, conhecessem os poderes de Fiolon como mago, testemunhar a manifestação de sua magia estava aquém de sua imaginação. E questionavam seus limites.
          – Se ele é capaz de comandar os astros, o que não será capaz de fazer com nossas vidas? – comentavam os leigos entre si
       – Nem em toda literatura mágica houve feito semelhante, nenhum arquimago demonstrou tal nível de domínio: seria ele um? – os magos se questionavam. 
               O Duque de Let tornou-se uma incógnita.



segunda-feira, 15 de maio de 2017

Arquimagos - Casamento de Arquimagos

Fanfic baseada no romance "A Senhora do Trílio" de Marion Zimmer Bradley

  Capítulo IV


Os dias passaram rápidos e quando todos se deram conta, a comitiva de Var batia à porta e o casamento também. Várias tendas foram instaladas em torno da Cidadela, pois todos os quartos ficaram ocupados, não só por nobres convidados de Var, mas também dos demais países vizinhos como Zinora e Raktum. Seus vassalos mais chegados foram instalados no sótão e como não couberam tantos, o restante teve que ficar em campo. Isto até que não os incomodava: na sua maioria soldados, estavam acostumados ao acampamento; o que de fato importunava muito era o excesso de umidade presente na atmosfera local – oriundos de uma terras litorâneas ou bem ventiladas, o ar dos pântanos pesava-lhes nos pulmões.
O primeiro impulso de Mikayla assim que soube da aproximação da comitiva de Var, foi correr para os braços de seu noivo, só que foi impedida pela Rainha e pelas suas damas: a tradição a proibia que os noivos se vissem antes do casamento. Naquele instante ela não se importou, pois poderia entrar em contato com ele mentalmente, porém não contava que ele a proibisse de vê-lo e criando um bloqueio mental onde só poderiam se ouvir. Isso a deixou irritadíssima e, ás vésperas das bodas, a terra sofreu um pouco com isto: alguns terremotos e tempestades quase prejudicaram a festa.
“– Você quer ficar calma? Ou quer um desastre justamente hoje?” – brigou Fiolon, invadindo a mente dela no dia do casamento.
– Estou farta de tanto mistério! Porque não me deixa vê-lo?”
“– Pelo mesmo motivo que me recuso a vê-la: quero ter direito à minha surpresa, à recordação deste dia... se você não se acalmar eu não consigo terminar de me aprontar, já que sua impaciência se reflete em mim!”
   Ela bufava em seu quarto deixando as aias tão nervosas quanto sua mãe impaciente. Uma das auxiliares espetou o dedo quando arrematava um detalhe no vestido e teve que ser substituída por alguém não tão competente, já que seu dedo não parava de sangrar – por sorte não manchou a roupa. As mulheres ficaram agitadas dizendo que aquilo era sinal de mau agouro. Mikayla, que não era nem um pouco supersticiosa e estava além do limite da irritação, preparou-se para fazer uma mágica cicatrizante, quando foi novamente repreendida:
“– Não use magia!”
– VOCÊ ESTÁ ME VIGIANDO AINDA POR QUÊ?? – berrou, espantando todos os que estavam à sua volta. – Ahhhh, não é com vocês...
– Filha o que há com você? Nunca vi alguém tão perturbada assim no dia de seu casamento!
– Mãe, podem me deixar a sós por alguns instantes?
A rainha assentiu e saiu do quarto juntamente com as demais aias. Mikayla se viu as voltas com um vestido bufante inacabado sobre uma apertada armação de arame e muitas anáguas. Desceu do banquinho onde estava e tentou ir em direção à poltrona em que sua mãe estivera sentada pouco antes, levando um tempo considerável para chegar. Ajeitou-se do jeito que pôde e tentou relaxar. Pensou na sua terra, na beleza que ela era: o céu constantemente cinza das chuvas, os pântanos que escondiam inúmeras ruínas de outras civilizações, as diversas tribos humanoides que povoavam aquele lugar, os rios que fluíam e eram meios de vida e de transporte... Era a Senhora de tudo aquilo, sua cuidadora, não devia deixar o ímpeto de suas emoções prejudicar o meio ambiente. Afinal, em breve conquistaria o que tanto desejou, sem deixar de cumprir sua principal obrigação: se casaria com Fiolon, o Arquimago de Var, mas antes disto seu melhor amigo. Não viveriam em uma cabana próxima ao Pântano Verde como planejaram na infância mas sim em uma torre nas montanhas Ohogan, tendo como animais de estimação mudos froniais e abutres gigantes que conversavam com eles através de telepatia. Algumas vezes ao ano teriam que se separar para atender às necessidades das terras das quais eram responsáveis, mas o que eram esses períodos para quem viveria quase uma eternidade? Um piscar de olhos na fração do dia...
Uma canção projetou-se no fundo da mente de Mikayla que a fez sorrir: aqueles pensamentos não eram dela. Fiolon a acalmava de seus próprios aposentos, tal domínio ele tinha sobre a mente da noiva. Ele a fez ver suas responsabilidades e suas realizações sem precisar chamar-lhe a atenção. Quando a aia bateu à porta, Mikayla sinalizou para que entrasse: já estava relaxada. Voltou para o banquinho onde as outras terminariam de arrumá-la em uma placidez que quem quem a vira minutos antes julgaria impossível de se alcançar...

Em uma ala oposta no castelo, aqueles que serviam à Fiolon deliciavam-se com as notas musicais que ecoavam de objetos estranhos. Eram artefatos dos Desaparecidos, ancestrais daquela terra, que ele recolhera das explorações que fizera com Mikayla tempos atrás. Costumava guardar para si tudo que era musical, uma vez que era dotado de um conhecimento nato sobre notas e arranjos, que fora aprimorado ainda mais após a sua iniciação em magia. Quando encontrava-se tenso, a música o acalmava, permitindo que ele equilibrasse os próprios pensamentos. Naquele instante, em meio ao vai e vem de pessoas que o auxiliavam a vestir-se, estava tranquilo, se comparado ao furacão que era a sua noiva momentos antes. Sua mente resistia em visualizá-la, mas mantinha-se ligada a ela por meio da audição e das sensações: Mikayla finalmente se acalmara.
Foram quatro anos de idas e vindas de Var à Laboruwenda, a fim de auxiliar Mikayla enquanto ela se preparava para a função de arquimaga, quando ele já era um. Tornou-se arquimago sem querer, mas não viu nisso uma complicação para sua vida: a magia era inerente a ele, tinha o dom, mais do que Mikayla até, e isso o ajudou a lidar com seu retorno a Var. O Rei ficou encantado com seu trabalho com as tribos e lhe concedeu o ducado de Let e foi aí que alguns problemas começaram: como duque, Fiolon tornou-se um partido de qualidade para as cortesãs e donzelas das famílias nobres. Foram inúmeras as vezes que encontrara mulheres nuas em sua cama, inúmeros os flertes em jantares e os insistentes convites dos nobres que se revelavam artimanhas para que conhecesse suas filhas. Fiolon contou ao rei seu compromisso com Mikayla, mas à medida que seu prestígio aumentava, seu tio parecia esquecer-se disso, empurrando-o para eventos que mais pareciam encontros. Com o tempo sua recusa às mulheres se transformou em boatos mais perniciosos, questionando  sua sexualidade: além das mulheres passou a ser assediado por homens também. Como sempre, foi astucioso ao lidar com a situação: passou a fazer questão de soltar as histórias sobre a origem desconhecida de seu pai, que poderia ser um bruxo, um feiticeiro maligno ou alguém das castas mais baixas. O temor pelo sangue contaminado espalhou-se e logo começaram a diminuir as insinuações. Por outro lado, aumentou-se a desconfiança em seu poder: se herdara a magia de um demônio, quais a seriam seus limites?
Estas questões o divertiam, pois aumentaram o mistério em torno de sua pessoa e lhe permitiram trabalhar em paz. Cumpria seus compromissos na extração de madeira das florestas de Var enquanto mantinha seus cuidados com a terra, aperfeiçoava seus dons e estudava constantemente. Ia e voltava de Laboruwenda quando Mikayla precisava de sua ajuda e evitava trazer transtornos para ela junto a Arquimaga Haramis. Quando Mikayla herdou a terra, achou que seus problemas românticos haviam se encerrado, até seu tio propor que se casasse com uma nobre de Raktum. Fiolon o fez recordar-se de seu compromisso em Laboruwenda e temendo que outras tentativas como esta surgisse no futuro, mandou que Mikayla enviasse uma carta aos reis de Ruwenda que seria levada por ele quando pedisse formalmente a mão da princesa em casamento. A carta era uma autorização da Arquimaga de Ruwenda, dando sua benção à união dos dois – desconhecem, no entanto que a arquimaga é a própria Mikayla.
– Está pronto, milorde!
Fiolon voltou seus pensamentos para o momento atual e olhou-se no espelho apenas para reconhecer a si mesmo, um gesto simples, que não lhe era comum. Fechou os olhos rapidamente, mas a imagem já estava lá, impressa na memória.
“– Sua skritekzinha dos infernos!!” – Ele brigou enquanto uma gargalhada ecoava em sua mente.
“– Você está lindo! Como sempre foi!”
“– Saia da minha mente agora! Vou bloqueá-la e se tentar invadir eu juro pelos senhores do ar que não me caso mais!”
“– Não tenho culpa se você se distraiu!” – Mikayla resmungou, entre chorosa e divertida. Agora que conseguira o que queria, ela estava triunfante.
“– Te vejo no altar Dama Branca!” – ele respondeu, numa falsa zanga
Os servos, percebendo sua mudança repentina de humor ficaram preocupados:
– Aconteceu algo milorde?
– Não... – respondeu com sinceridade. “É só a velha criança com quem vou me casar aprontando das suas”, pensou consigo mesmo e teve que sorrir.



quarta-feira, 10 de maio de 2017

Arquimagos - Casamento de arquimagos

Continuação da Fanfic baseada na obra A Senhora do Trílio, de Marion Zimmer Bradley.

Capítulo III

O primeiro dia de Mikayla na corte após seis anos de treinamento com a antiga arquimaga acabou sendo mais agitado do que ela mesma esperava. Logo pela manhã foi bombardeada com perguntas sobre o período em que viveu com Haramis, desde as desconfianças desta de que a princesa e Fiolon praticavam imoralidades, até a principal  questão do dia: o porquê de, agora, a relação entre Mikayla e Fiolon ser aprovada. Tais questionamentos já haviam sido ensaiados pelo casal; uma vez que ninguém das terras baixas soubera da morte de Haramis, somente seus servos e espiões mais chegados, a segurança dos arquimagos estaria no rearranjo dos acontecimentos para que não fossem necessárias mentiras e mais mentiras para encobrir a verdade.
– Confesso que fiquei confusa quando recebi a mensagem solicitando que nos preparássemos para o seu casamento, filha; da última vez que esteve aqui, a Arquimaga quase atentou contra a vida de seu primo.
–Sim mamãe, a Senhora Haramis cometeu alguns atos falhos (verdade), mas no final percebeu que estava enganada a nosso respeito (verdade).
– Acusá-los de imoralidade, vê se tem cabimento? – resmungou a rainha. Haramis não se conformava com a ligação entre Mikayla e Fiolon independente das distâncias e dos feitiços que fazia para separá-los, chegando prestar queixa aos reis.
Mikayla sorriu.
– Ela nunca entendeu que duas pessoas podem se conectar sem serem amantes, ainda que, segundo as lendas, ela fosse conectada às suas irmãs. (Fugi do contexto, mas é verdade. Se querem saber se dormi ou não com Fiolon que sejam diretos!)
– E como fica a sua situação? Você não será mais arquimaga? – perguntou o Rei.
– A terra já possui uma nova arquimaga papai (verdade). Eu estou a serviço dela (da terra e não da arquimaga. Tudo depende do contexto!)
– Como assim, uma nova arquimaga? O que houve com Haramis? – quis saber a rainha.
                – A doença dela se agravou (meia verdade, mas nunca vou dizer que foi minha teimosia que a fez optar pela morte a fim de poder dar à terra uma protetora capaz)!
– Quer dizer então que você foi retirada do convívio de sua família por nada?
A jovem analisou o pai. Ele não parecia aborrecido com o assunto anterior nem com esta pauta que ele mesmo levantara. Mikayla entendeu que para ele não fazia diferença o que aconteceria com ela desde que o resultado fosse satisfatório: uma filha feiticeira ou casada com um pretendente promissor não eram alternativas ruins. Naquele instante lembrou-se que os pais não a procuraram em nenhum momento durante todos aqueles anos; ainda que estivesse sob a tutela de alguém da mais alta importância para o reino, não recebeu a visita de sequer um mensageiro. Ou talvez Haramis tivesse suprimido as mensagens?
“Eu as encontraria”, pensou
 – Não vejo desta forma meu pai. Com certeza não aprenderia metade do que sei se tivesse permanecido na Cidadela, muito menos conheceria as necessidades de nossas terras como conheço agora. Ademais, a única coisa que me foi ruim nesta história toda foi ser obrigada a ficar afastada de Fiolon, o único que sempre se importou comigo, uma vez que vocês, se já me ignoravam antes certamente continuariam fazendo-o depois! - e diante das expressões enrubescidas de seus pais, pediu mais vinho e mudou de assunto.

Mais tarde, quando soube do acontecido, Fioloin foi às gargalhadas. Mikayla havia relatado seu “dia de princesa” com escolhas de músicas, vestidos e comidas – escolhas não, pois a mãe decidira tudo por ela explicando o que era tradição que deveria ser preservada e o que era tradição mas que não caberia no contexto – como passear pela avenida saudando os cidadãos após consumarem o casamento.
– E você, como foi seu dia em Var?
– A corte está um alvoroço, como se já não tivessem festas o suficiente todos os dias. Não terei tempo de ir até o meu ducado e inspecionar a construção da vila...
– Vila? Mas que vila?
– Ah droga, - resmungou Fiolon, e na imagem da pequena esfera que trazia no pescoço, Mikayla percebeu que ele enrubescera. – Não é nada! É um segredo.
– Lorde Fiolon de Var: sabe que não gosto de segredos!
– Você vai gostar deste Mika... por favor não me faça perder os dias de disciplina mental tentando ocultá-lo de você por causa de um mero deslize.
– Disciplina mental? O que você fez?
– É apenas um truque, ensinarei para você depois; aliás não sei se deveria ensinar mas enfim... Preciso ir: a comitiva parte em algumas horas e não posso deixar faltar nada para o rei e seus convidados.
– Você deveria dizer “nossos” convidados...
– Política Mikayla. Terá que se acostumar com isso!

Ele piscou com um sorriso maroto e sua imagem desapareceu da esfera. Mikayla tentou não pensar no monte de gente estranha que teria em seu casamento e para as quais seria obrigada a cumprimentar e sorrir com mesuras. Não estava mais habituada a isto, e era um preço pequeno a pagar pela quase eternidade que poderia passar ao lado do seu escolhido. Pensar nisto acalmou-a, mas não lhe trouxe o sono. Rolou na cama de um lado para o outro e ficou observando o teto, esperando o sono que não vinha. O quarto concedido a ela era o mesmo ocupado pela Arquimaga Haramis na época em que essa era somente uma das princesas trigêmeas e a herdeira do trono de Ruwenda. Junto com as irmãs, assistiu ao covarde assassinato de seus pais, o Rei Krain e a Rainha Kalanthe, por invasores Labornokianos comandados pelo Rei Voltrik e o Arquimago Orogastus – e por isso a ideia de um arquimago homem sempre lhe foi odiosa. Na busca da única arma que poderia derrotá-los, o cetro triplo do poder, cada uma das irmãs seguiu sua jornada e foi nesta que Haramis foi ordenada Arquimaga pela sua antecessora, a Arquimaga Binah, que também lhe concedeu sua parte do talismã: a varinha de prata chamada Círculo das Três Asas. Kadiya, a segunda princesa, encontrou seu talismã, uma espada chamada Olho Ardente Trilobado, nas ruínas do Pântano Dourado, onde outrora fora a cidade de Yatlan. Por lá mesmo se perdera, sem ninguém jamais saber ao certo o que lhe ocorrera, inclusive a própria Haramis que muitos anos antes de morrer não conseguia mais ter a visão da irmã que até hoje era venerada pelos nyssumos e uisgus, povos oddlings que habitavam aquele reino. Já a terceira parte do talismã, uma tiara chamada de Monstro das Três Cabeças, coube a mais nova e delicada das irmãs encontrar: Anigel, que enfrentou os skriteks, ardilosos habitantes dos pântanos alagadiços. Junto com suas irmãs derrotou o exército labornokiano e após a vitória, as irmãs mais velhas recusaram o trono e coube a ela governar a então Laboruwenda juntamente com o Príncipe Antar, filho do Rei Voltrik mas que se revoltara contra as arbitrariedades do pai e decidira por um governo mais justo.
Tudo isso ocorrera há muitos anos e fazia parte da história dos reinos. Era obrigação de Mikayla conhecer, principalmente para compreender os motivos pelos quais a Arquimaga Haramis colocou suas emoções acima da razão e deixou o lado labornokiano do reino desamparado; cabia agora a ela reparar este equívoco. Pensar nisso a aborreceu e vendo que não conseguiria dormir, resolveu passear pelo castelo. Acabou inconscientemente indo ao antigo quarto de brincar dela e de Fiolon, no décimo oitavo andar da torre sul daquele castelo, onde ninguém ousaria – sequer se preocuparia – em ir procurá-los. Subia as escadas silenciosamente e sem perder o fôlego, afinal vivia nas montanhas em uma torre tão alta quanto, quando ouviu umas risadinhas furtivas vindas do lugar. “O que está havendo lá em cima?”, perguntou-se, porém, ao chegar, as risadas pararam e não viu ninguém. “Devo estar ficando louca!”. O lugar era pura poeira, mas as marcas de pés no assoalho indicavam que ainda tinha uso para alguém. Mikayla dirigiu-se para a sacada e ficou observando as três luas no céu, todas em quarto crescente. Queria casar-se na lua cheia, mas se a comitiva de convidados atrasasse isto poderia não ser possível.
Foi então que um barulho próximo à porta a assustou:
–Quem está aí?
–Sou eu, irmã!
Era Egon. Mikayla não soube precisar se ele entrava ou saía, uma vez que demorou-se na porta até resolver se aproximar.
– Pensei que este quarto tivesse finalmente sido inutilizado depois que Fiolon partiu – disse ela.
– Ele é mais utilizado do que você imagina – comentou o rapaz, com certa malícia no olhar. Mikayla concluiu que estragara os planos dele indo até lá; aliás, com certeza os planos dele e de alguma outra pessoa – Então, pelo que vejo estava sem sono e resolveu vir recordar-se do tempo que ficava aqui trancafiada com Fiolon?
– Sim, costumávamos ficar aqui partilhando as descobertas de nossas explorações, lendo pergaminhos interessantes, planejando fugas ou simplesmente deixando o dia passar entretidos em algum jogo de estratégia esquecido – respondeu ela, fingindo ignorar as insinuações do irmão. – Ao contrário de muita gente, passávamos o tempo educando nossas mentes e desenvolvendo nossas habilidades, por isso merecemos nossas conquistas.
– Não vejo grande coisa ser Duque de Let quando se é filho de um pai desconhecido
Mikayla ralhou internamente consigo mesma, pois quase revelara ao irmão sua condição e a de Fiolon também como arquimagos da terra. Mudou de assunto, e de maneira mais amistosa, perguntou sobre seus outros irmãos, que já estavam casados e não viviam mais na cidadela, com exceção do príncipe herdeiro. Durante a conversa, novamente Mikayla sentiu-se ignorada pela família: houveram casamentos mas nem sequer um convite, que poderia libertá-la das obrigações com Haramis, mesmo por poucos dias. Egon contou-lhe resumidamente o que aconteceu com cada um de seus irmãos e como o castelo foi ficando mais vazio com a partida deles.
– Foi muito ruim ser o ultimo herdeiro e ter que andar por aí sozinho – lamentou-se ele
– A mamãe finalmente te deixou livre?
Egon fez cara de desprezo
– Quando digo “sozinho” quero dizer com alguém da minha idade, para brincar, divertir-se e ter aventuras, não um bando de educadores ou a mamãe querendo-me ao seu lado para expor às visitas como um bicho de estimação...
Outro sentimento atravessou o coração de Mikayla: pena do irmão. Lembrou-se de si mesma nos primeiros anos de treinamento para ser arquimaga, após Fiolon ser expulso pela primeira vez. Ainda não havia desenvolvido perfeitamente a comunicação mental e sua companhia mais agradável era uma harpa falante, já que os empregados cumpriam seus afazeres domésticos sem dar muita atenção a ela. Compreendia o irmão: no meio de muitas pessoas, também estivera sozinho.
– ... mas agora sou dono do meu próprio nariz e posso fazer o que quiser: festas, jogos, caçadas, expedições...
– Só isso?
– E o que mais poderia? Quer que eu me tranque em uma torre e me torne arquimago? Ou nem isso?
A pena que Mikayla sentia foi embora:


– Quer saber, tem razão Egon: faça o que quiser da sua vidinha real, só sugiro que pense bem para não se arrepender depois. Para seu governo, ser um arquimago é mais do que ficar trancado em uma torre, exige sabedoria, amor e dedicação à terra. Requer conhecimento. Mas você não precisa disso, não é verdade? Afinal, com seu rostinho lindo pode ter o reino aos seus pés e aniquilá-lo com o polegar. Mas beleza e nobreza não são tudo nesta vida, caríssimo irmão, e você se lembrará disto quando estiver a beira da morte e não tiver feito nenhuma grande realização! – esbravejou ela, e antes que o outro tivesse qualquer reação, virou-lhe as costas e o deixou sozinho no sótão, com o pedido de desculpas entalado na garganta e muitas dúvidas na mente...