domingo, 12 de novembro de 2017

Arquimagos - Explorando Labornok

Capitulo XIII


                Havia mulheres gritando. E crianças também. Bebês. O fogo que parecia lamber as paredes era apenas uma série de fogueiras acesas para iluminar o lugar. Uma tenda? Uma caverna? Não dava para saber. As mulheres gritavam cadenciadamente, percebeu. Era um coro: havia dor, mas também preocupação. Partos coletivos. Os curandeiros estavam vestidos de negro, com máscaras. Porque não podiam deixar ver seus rostos? Um par também vestido de preto e mascarado acompanhava tudo a certa distância. Os recém-nascidos eram levados até eles. Uma espécie de seleção? Uns para esquerda, outros seguiam a direita, mas outros eram levados para outro lugar. A visão seguiu o curandeiro que levou um dos recém-nascidos. Havia urgência em carregá-lo para longe. Uma carroça esperava, outras crianças gemiam em cestas cobertas de tecido e palha.
                Não.
                Crianças não!

                Mikayla acordou sobressaltada, assustando Fiolon, que derrubou o vidro de tinta sobre as próprias anotações.
                – “Acho que tive um sonho ruim”
                – “Percebi. Mas tem certeza de que fora sonho?”
            – “Não sei... Acho que foi influencia do assunto de antes de dormir. Sonhei que mulheres estavam parindo e dentre as crianças normais havia... monstros”
                Fiolon suspirou.
               – “Pode ter sido culpa minha. Estava lendo justamente sobre como os desaparecidos criaram novas espécies. Eles usaram todo o tipo de fêmea, inclusive humanas”
            – “Cruzes!” – pensou Mikayla, mas uma recordação longínqua lhe veio à mente: mais  alguém já lhe falara sobre um lugar que faziam experiências. Um lugar de escuridão.
           
             Muitos dias já haviam se passado e eles permaneciam hospedados com D. MacAran. Trocaram a ajuda no sítio pela leitura do livro, mas não chegaram à sua metade. O velho achou um preço barato, e muitas noites se juntou a eles sobre conjecturas do que ocorrera. Fiolon compartilhou com ele toda a história da guerra entre as duas terras sob a ótica de Ruwenda, através de baladas. Só não se sentiu confortável para cantar a balada que narrava a morte da arquimaga Haramis, não por ter presenciado o fato, mas pelo nome desta não ser bem vindo àquela região. Haviam percebido isto enquanto circulavam pelas tribos: todos compartilharam a opinião de que a arquimaga abandonara o cuidado à Labornok – o que infelizmente era verdade.
                – As pessoas que vivem o dia-a-dia sentem-se muito distantes destas questões de poder. – explicou-lhes D. MacAran, quando percebeu que o povo não parecia querer exigir que os donos do poder cumprissem suas obrigações com eles. – É como o olhar de uma lagarta da terra, entendem? Elas não querem saber que há um ser humano que trabalha na terra que elas vivem, e que dependem de agentes da natureza para que a terra fique úmida ou seca: para elas a única coisa que importa é cavar, pois se ela parar para culpar os grandes das coisas, seu trabalho não termina, fica incompleto ou pior, corre o risco de não levar a comida que precisa no final do dia. Os grandes é que deveriam olhar para as minhocas e não o contrário. Mas não é assim que acontece.   
                A amiga de D. MacAran, D. Angélica, esteve lá uma tarde com as netas. Eram duas jovens bastante bonitas cujos pais trabalhavam na cidade. Tentavam convencer D. MacAran a mudar-se para a cidade com elas, pois as coisas não estavam boas nos arredores da floresta.
            – Muitos atravessam a ponte e posso vê-los do Moinho. Quando vejo algum perigo colocamos panos vermelhos no moinho...
– Porque os panos? - Fiolon quis saber.
– Dão a impressão de fogo. – disse uma das meninas. - O viajante desvia e pega o caminho do rio.
– Há algo na floresta MacAran, - prosseguiu D. Angélica -  algo muito ruim. Não haverá ninguém a quem pedirmos ajuda se algum mal nos acontecer. É um tempo de escuridão...
                De novo, Mikayla teve a sensação de que já ouvira a expressão antes, numa outra época. Ela e Fiolon acompanhavam a conversa fingindo desinteresse, mas atentos às informações. Talvez esse fosse o perigo que o sentido da terra de Mikayla lhe transmitia. Olhou para Fiolon e a mensagem foi clara: precisavam partir.

D. MacAran não escondeu lamentar a partida dos jovens, havia se afeiçoado a eles. Por alguma razão aparentemente boba, mas claramente instintiva, acreditou que eles eram herdeiros dos Desaparecidos. A sede de conhecimento que o casal tinha pelo livro era curiosa e D. MacAran ficava feliz em esclarecer suas dúvidas, relembrava-lhe a época de tutor. A partida, porém, era necessária, isso ele podia compreender. Em três dias os jovens concluíram as tarefas pendentes no sítio: consertos de cercas, limpeza da terra e trato dos animais. Fiolon lamentava não terem terminado o livro e queria crer que encontraria uma cópia do mesmo em algum lugar de Labornok.
– Acredito que outros exemplares existam sim rapazinho, pelo menos no Liceu, se não o consideraram ultrapassado. Este aqui encontra-se na família há gerações. No liceu certamente encontrarão tudo que a gente da sua idade detesta: filosofia, matemática, física, ciências...
– O senhor só pode estar brincando: é justamente o que nós amamos! – disse Mikayla.
– Vocês são os jovens mais extraordinários que já conheci!

           Despediram-se numa manhã ensolarada – não porque a arquimaga quis, realmente fazia Sol. Os froniais bastante descansados e preguiçosos, já que exercitaram pouco, demoraram a pegar o ritmo de trote aceitável, o que lhes tomou um tempo considerável pela manhã. Já avistavam a ponte quando resolveram fazer um pequeno desvio e cumprimentar D. Angélica e suas netas, tão gentis durante a visita. Encontraram o silêncio. Algo agourento invadiu suas almas, e puseram a chamar e a vasculhar o interior da casa. Nada. Apenas a bagunça de bens revirados.
– Elas foram atacadas! – Mikayla deu palavras ao que via. Do lado de fora, Fiolon esquadrinhava o local à procura de pistas quando algo respingou em seu ombro. Era viscoso e vermelho. Sangue. Mal teve tempo de olhar para o alto e o grito de Mikayla lhe atingiu: o choque fez com que compartilhassem involuntariamente a visão da arquimaga.  Das janelas do piso superior da casa, ela via lençóis brancos manchados de vermelho pendurados no moinho.

Lençóis que ocultavam os corpos enforcados de D. Angélica e suas duas netas. 



sábado, 4 de novembro de 2017

Arquimagos - Explorando Labornok

Capitulo XII 

Na companhia de D. MacAran


– Sempre morou aqui sozinho? – quis saber Fiolon, assim que terminaram a singela refeição feita de pães e sopa de adop. Estarem secos, limpos, alimentados e aquecidos foram os pequenos luxos desejados pelos arquimagos e atendidos naquela noite. D. MacAran revelou-se ser um valoroso anfitrião, e pareceu animado com sua presença, toda desconfiança inicial esvaiu-se assim que puseram os pés na casa. Era uma espécie de cabana ampliada: sala e cozinha integradas, o quarto do proprietário e uma sala de banho; a latrina ficava em um cômodo anexo. O ambiente estava suficientemente limpo e organizado, com uma rigidez militar para um velho solitário.
                – Já tive alguns empregados, mas com a crise todos se foram. Mantenho o sítio como posso, minha amiga Angélica, que mora do outro lado do moinho, vem me visitar constantemente. Antes quando algum andarilho batia em busca de trabalho e abrigo era bom, mas hoje está difícil abrir as portas...
                – Mas o senhor não tem família D. MacAran? – foi a vez de Mikayla questionar.
                – O pai do meu pai foi um soldado do reino, e meu pai foi mestre de armas. Vivíamos bem na capital, mas as coisas começaram a ficar ruins. Eu puxei um tio de minha mãe e quis ser mestre, lecionava para filhos dos nobres que queriam que seus filhos fossem cultos, uma gente do bem. Minha família e eu vínhamos para cá nos verões, mas com o tempo deixamos o sítio de lado. Quando o Liceu de Estudos em Derorguila resolveu remodelar suas disciplinas senti que já havia cumprido meu tempo ali: juntei minhas coisas e vim para cá. Já estava viúvo há algum tempo, não tivemos filhos. Minha irmã ainda mora em Derorguila com os filhos.
                Fez silêncio por alguns instantes, enquanto o velho parecia viajar nas próprias recordações. Os arquimagos respeitaram este tempo, sabe-se lá quais memórias haviam acionado em um senhor que agora vivia recluso. Um suspiro, e a conversa foi retomada:
                – Mas e vocês: o que fazem por estas bandas tão longe de suas terras? – e vendo o espanto dos jovens, continuou – Ora não fiquem assim, reconheci pelo sotaque: você – apontou para Mikayla – com certeza é de Ruwenda, mas você, não consigo decifrar de onde é.
                – Sou de Var – respondeu Fiolon, aliviado e ao mesmo tempo preocupado: as tribos pareceram não se importar com seu modo de falar, mas isso poderia ser um problema entre humanos?
                – Andarilhos. – complementou Mikayla. ­– Não temos mais terras. Caminhamos por aí em busca de conhecimento, trocando trabalho por abrigo.
                – Deveriam ter seguido outro caminho, pois aqui não há muito que se oferecer.
                – Temos nos virado bem! – contestou Mikayla.
                – Verão o que falo antes de chegarem às cidades: Labornok está entregue ao caos.
                – Mas a Cidadela controla tudo através dos regentes em Derorguila!
                – Mocinha, com todo respeito que tenho a você e que creio que você ainda tem pela sua terra eu lhe digo: Ruwenda está pouco se importando com o que acontece além das Montanhas Ohogan. Desde que me conheço por gente só querem saber de recolher impostos e tributos para enriquecerem. Não há mais segurança, uma corja de ladrões e sequestradores se espalhou por todos os lados. As tribos estão criando as suas próprias leis, e isso se altera entre desavenças com amigos e laços com inimigos de acordo com seus interesses. E ainda há essa doença esquisita que não encontram cura... É um mundo sombrio este que vieram conhecer!
                – O que quis dizer com doença esquisita? – perguntou Fiolon.
                – Não sabemos de onde começou, mas ataca somente os jovens, os homens exclusivamente. Ficam violentos e selvagens. Uma patrulha ronda por aí coletando-os, porém ouvi dizer que muitos fugiram e atacam em bandos. Não há registros de coisa igual em lugar algum. Parece até com os experimentos que os Desaparecidos fizeram antes de partirem...
                – Que experimentos? – Mikayla e Fiolon perguntaram juntos.
                D. MacAran olhou-os com curiosidade:
                – Ora, ora, dizem que saem por aí em busca de conhecimento e não sabem a história dos Desaparecidos? A História da nossa origem?
                – Mas é claro que sabemos quem são nossos antepassados! – bradou Mikayla
                – Então sabem que eles quase explodiram este mundo, certo? E arrependidos criaram as raças aborígenes?
                A guerra nuclear. Os arquimagos sabiam disto. Foi na primavera de sua civilização, seus ancestrais desenvolveram uma tecnologia riquíssima, mas isto criou desavenças, desequilibrou os polos e quase destruiu seu mundo. Aquele povo se sentiu culpado e partiu, não se sabe para onde, deixando outros seres para cuidar melhor do que eles quase acabaram. Eles sabiam que os humanos das aldeias distantes, que nada souberam daquela guerra, iriam saciar sua sede de conhecimento e curiosidade algum dia, o que os fariam migrar de suas regiões; dito e feito, milhares de anos depois os humanos novamente se espalharam pelo mundo das Três Luas e o dominaram.
                O silêncio e olhar perdido dos arquimagos deu a D. MacAran a impressão errada. O velho divertiu-se com o que considerou “expressões de assombro” e achou que aquele seria o bom momento para uma “aula”. Sentiu seu instinto de educador, há anos adormecido, despertar e espreguiçar-se. Levantou-se animado até seus aposentos, carregando um lampião consigo. O cômodo era mediano, uma cama em um canto, uma escrivaninha ao lado da porta, e prateleiras espalhadas pelas quatro paredes repletas do tesouro mais precioso para os arquimagos: livros.
                – Aqui está! – gemeu D.MacAran, ao fazer um esforço para retirar um grosso volume de uma das prateleiras. – Neste volume temos toda a pesquisa feita pelo catedrático Silas Vancour, que compilou toda história conhecida sobre nosso mundo, desde canções e anotações. É um volume raro!
                Os meninos reuniram-se fascinados ao redor do velho, maravilhados com aquelas páginas envelhecidas. Haviam nelas o conhecimento que preencheria as lacunas que eles não sabiam existir? D. MacAram abriu num trecho no meio do, que narrava justamente a partida dos Desaparecidos. Enquanto lia, a atenção dos arquimagos foi desviada para uma gravura na página, que recriava anotações encontradas junto com alguns artefatos antigos. Estava na língua dos Desaparecia, língua que Mikayla e Fiolon dominavam, e parecia também ser de domínio do autor do livro, já que o trecho destacado tratava justamente de um acordo de proteção firmado por três dos Desaparecidos, que ficariam e cuidariam para que a maldade não voltasse a enegrecer os corações dos humanos outra vez: Derby, Iriane e Binah.
– É Binah! A primeira arquimaga? – disseram os dois ao mesmo tempo, deixando D. MacAran perdido em meio a sua leitura.
– Hein? Sim, parece que a Arquimaga Binah fazia parte do grupo dos Desaparecidos que não “desapareceu”. Ela foi importante em muitos eventos ao longo da nossa história. Não diz para onde os outros dois foram...
D. MacAran bocejou, e todos perceberam que estava tarde. Mesmo assim Fiolon não resistiu e perguntou se não poderia continuar lendo o livro antes de dormir.
– Claro! E se desejar podemos conversar mais pela manhã. Mas agora perdoem um pobre velho mas preciso descansar. Boa noite!
Eles esperaram o velho se recolher para conversar mentalmente entre si.
– “Esse livro contém a história do mundo, não só de Ruwenda, Labornok e Var.” – ruminou Fiolon – “Não acha estranho que só a arquimaga de Ruwenda tenha sido citada?”
Mikayla considerou relevante a pergunta do companheiro, mas não tinha uma resposta para ela. Enquanto Fiolon corria até os seus pertences à procura de um bloco de anotações, pena e tinta, ela sentiu que era importante obterem aquele conhecimento. Seria orientações ocultas dos Senhores do Ar para complementarem seu aprendizado? Afinal, porque um livro como aquele não estava na biblioteca de nenhum dos dois palácios?
Fiolon já começara as anotações e ela foi sentar-se ao lado dele, compartilhando mentalmente aquilo que liam. Mas fora um dia longo, e logo o cansaço abateu sobre eles com força. Mikayla cambaleou para a cama feita no chão; Fiolon resistiu um pouco mais, mas acabou adormecendo com debruçado nas próprias anotações.

E desta vez, os olhos que os observavam pelas frestas das paredes de madeira não foram percebidos.



domingo, 15 de outubro de 2017

Arquimagos - Explorando Labornok

Capítulo XI


O instinto fez Fiolon despertar: uma presença não convidada estava à espreita, observando-os. O vulto, que contrastava-se com as aberturas da estrebaria, estava parado: ainda que tenha vindo lentamente, o barulho da chuva teria encoberto o som de seus passos. Como não pretendia ser pego de surpresa, Fiolon mentalizou o punhal preso em seu tornozelo e trouxe o objeto até às suas mãos, na expectativa. Fechou os olhos quando o velho acendeu um iluminador de gelo, e a luz fraca não permitiu que visse rosto do inimigo, escondido por um capuz. Fiolon ampliou a visão mental e pôde ver quando o vulto deu um passo arrastado, elevando o iluminador para ver melhor o ambiente. Ficou um tempo analisando, até que pareceu se interessar por Mikayla. Enquanto debruçava-se sobre ela, Fiolon, com um movimento rápido, apontou seu punhal para o desconhecido:
– Não ouse tocar nela! – disse baixa e friamente.
O vulto assustou-se e, atrapalhando-se com as próprias vestes, gritou e caiu, acordando froniais e Mikayla. Os animais começaram a emitir ruídos estressados enquanto a menina tentava entender o que se passava. Fiolon passou por cima dela e prendeu seu inimogo ao chão, com o punhal apertado em sua garganta.
– O que você quer??  - bradou Fiolon.
– P-por favor não me machuque! – gemeu uma voz choramingosa
Movida pelo senso de praticidade, Mikayla ateou fogo em uma tocha:  abaixo de Fiolon, um ser gordo, de grandes olhos esbugalhados e muitas rugas no rosto tremia apavoradamente.
– Porque estava aqui? O que quer?? – bradou Fiolon, demonstrando uma coragem nunca antes vistas por Mikayla.
– E-eu não... e-eu só... eu só queria saber quem estava aqui! Achei que... que fossem as bestas!
– Solte ele Fio!
Fiolon hesitou por alguns instantes antes de sair de cima de seu oponente e ir para perto de Mikayla, ainda de punhal em riste. Com um esforço que logo foi perceptível ser da idade avançada, um velho sentou-se, ainda mantendo os braços na defensiva.
– Por favor não me machuquem! Podem levar o que quiserem!
– Não queríamos nada além de abrigo. – respondeu Mikayla.
O velho, cuja cabeça parecia dominada pelo gelo eterna das montanhas, respirava com certa dificuldade. Mikayla parecia esperar que ele se recuperasse para desenvolver um diálogo, mas Fiolon, ainda sob o efeito do despertar repentino, estava impaciente. Percebendo a confusão e a insegurança que habitavam dentro dele, Mikayla enviou-lhe ondas de tranquilidade: tanto ele quanto o velho estavam em um impasse, agindo por defesa.
– Perdoe a atitude de meu primo Senhor, ele apenas nos defendia.
– Eu entendo... – foi dizendo o velho, lentamente – No mundo em que vivemos ações sobrepõem-se á razão.
– O que pretendia aproximando-se tão sorrateiramente? – quis saber Fiolon, ainda desconfiado.
O velho analisou-os por um tempo antes de responder.
– Vocês são jovens – murmurou o velho, parecendo mais para sai do que para os arquimagos. Parecia que agora, baixada um pouco a guarda, ele realmente os via – eu pensei em surpreendê-los antes que pudessem me atacar...
– Achei que as regras de hospedagem valessem nestas terras também – disse Mikayla, um pouco assustada com o que não foi dito mas concluído na fala daquele estranho: havia implicações de medo e perigo a cada respiração dele. – Não vamos incomodá-lo mais: iremos recolher nossas coisas e partir.
Fiolon olhou admirado para ela: ainda chovia bastante lá fora, mas Mikayla sabia que não era por isso que ele a indagava com o olhar. Mikayla sempre fora a mais impetuosa e questionadora dos dois, era de se esperar, no mínimo, muitas perguntas.
– “Não vamos piorar a situação” – ecoou o pensamento na mente do arquimago.
Ela pegou as bolsas e juntou suas coisas para partir. Fiolon mantinha o punhal erguido diante do velho, vigilante, mas vê-lo esfregando o pescoço com mãos decrépitas somado ao esfriamento da situação fez com que se sentisse culpado por tê-lo machucado. Afinal o velho só defendia seu lar. Antes de saírem, Fiolon lhe entregou um emplastro de ervas.
– Use isto para aliviar a dor, e como recompensa do que quer que tenhamos lhe causado.
O Velho ainda olhava para o emplastro enquanto eles retiravam os animais. Cobrindo-se com as capas, os arquimagos saíram para a chuva. Já estavam próximo aos portões quando gritos roucos os chamaram de volta. .
– Esperem, esperem! Há muito tempo que não chamam a minha atenção a respeito das velhas regras. Muita coisa mudou por aqui nos últimos anos, e me fizeram esquecê-las. Eu não serei conhecido como um mal anfitrião, então por favor fiquem.
O jovem casal entreolhou-se: precisavam descansar, mas acima de tudo, poderiam confiar?
O Velho, percebendo a relutância caminhou vacilante até eles, mas o bambear de seu corpo fez com que escorregasse e caísse: Fiolon socorreu-o
– Ah.. nada como uma mão amiga! Acho que tivemos uma série de mal-entendidos, rapazinho: eu sou D. MacAran e será um prazer hospedar vocês em meu lar. 



domingo, 8 de outubro de 2017

Arquimagos - Explorando Labornok

Capítulo X


         Os arquimagos seguiram as orientações dos vispis e se mantiveram rumo ao norte, onde poderiam encontrar uma boa quantidade de vilas oddlings ao longo do caminho e se manterem abastecidos. Labornok não era tomada de pântanos como Ruwenda, suas florestas possuíam solo firme mesmo ao sopé das montanhas de neve; porém a era uma mata densa, bastante fechada, como se nunca tivesse sido explorada. Era fácil se perder nas trilhas já que elas praticamente não existiam e a copa das árvores não permitia uma orientação fácil pelo céu; Mikayla utilizava-se do amuleto de trílio herdado da antiga arquimaga como guia, uma peça em âmbar, contendo um trílio negro, símbolo de Ruwenda, cristalizado. As tribos pelas quais passaram estavam terrivelmente decadentes; parecia que o estrago feito pela guerra entre os dois reinos duzentos anos atrás insistia em deixar suas marcas. Conversando aqui e ali, os arquimagos entenderam que muitos jovens nyssumos partiam para as cidades litorâneas em busca de trabalho; não havia o que garimpar mais nas ruínas de Labornok já que tudo fora confiscado pelos sacerdotes do templo de Meret, extinto dois anos antes - obra de Haramis para salvar Mikayla, mas o povo não precisava saber disto.
                – Os pais tem medo que os jovens desapareçam, então estão tirando eles daqui. Isso é mal para as terras, não temos a quem passar nossos costumes, nossa cultura. Eles têm medo e não querem voltar. – explicou uma velha vendedora de ervas, com quem Mikayla trocou mantimentos por folhas para fazer chás.
                – Porque estão com medo de desaparecer?
                – Ah, os baderneiros... Sequestram os jovens bons... – e virando-se para Fiolon completou – Eu se fosse você rapazinho, tomaria cuidado e sairia logo da floresta.
                Era a quinta aldeia pela qual passavam que fazia referência ao êxodo dos jovens. Fiolon se perguntava se era este o problema que a terra alertava á Mikayla: a diminuição da população oddling. E como não podia desconsiderar nada em sua pesquisa, pensava em quais seriam as consequências para terra caso os aborígenes desaparecessem. Sua concentração no entanto era perturbada pela pressão no ar: o calor na floresta estava insuportável, com o sol estivesse oculto por detrás de camadas e camadas de nuvens
                – Acho melhor você deixar a chuva cair! – disse para Mikayla. Como agora seguiam sozinhos não necessitavam da linguagem mental.
                – Eu sei... – ela parecia exasperada – Eu só queria encontrar um abrigo seguro para nós antes.
                – Você sabe que isto é errado não é? Usar magia sem propósito e curvar a natureza ao nosso favor...
                Mikayla permaneceu calada. Não demorou muito e gotas de chuva começaram a molhar timidamente suas vestes, para logo em seguida deixarem a timidez de lado e se transformarem numa enxurrada. Quando o frio atingiu seus ossos, Fiolon se arrependeu de ter chamado a atenção da jovem esposa, que seguia ereta em seu fronial alguns passos à sua frente, impassível a chuva. Ele se lembrou de que ela era capaz de controlar a temperatura do próprio corpo e criticou-se intimamente de ainda não ter aprendido isso. Rindo de sua própria incapacidade, aproximou-se para fazer piada sobre o fato, mas percebeu pelo gesto involuntário de quem seca os olhos num rosto oculto por um capuz, que algo estava errado: Mikayla chorava. Firme em seu fronial, ela evitava desmoronar emocionalmente em diante de seu marido e ele sabia que era por puro orgulho: ela queria provar para ele que ela era capaz de lidar com Labornok. Ele nunca duvidara de sua capacidade e indeciso entre ampará-la ou deixá-la só com suas dores, a segunda opção lhe pareceu mais favorável: Mikayla nunca evoluiria se ele estivesse por perto toda vez que ela se sentisse inapta.
Chegaram à estrada que os conduziria até Derorguila sem que a chuva diminuísse; parecia furiosa por ter sido mantida na atmosfera contra a vontade. Seria um longo caminho até a antiga capital, e não faziam ideia da aldeia mais próxima, mas estradas eram melhores e mais seguras que trilhas errantes em uma floresta desconhecida. Suas esperanças em encontrar um local seguro para pernoitar diminuíam na medida em que a noite avançava, ainda que acreditassem que as chances na estrada fossem melhores. Há dias dormiam sob a copa das árvores ou em algum abrigo de animais, e como a vida acastelada tirou deles a capacidade de adequarem-se à situações desconfortáveis, ansiavam por um lugar quente e  alguma comida fresca: as provisões secas que levavam dariam para poucos dias. Por ora caçar não era opção.
                – Calculei mal as distâncias, me desculpe... – disse Mikayla, por fim.
                Antes que Fiolon respondesse, uma luz tênue vinda do meio da floresta chamou-lhes a atenção aumentando conforme se movimentavam pela estrada e outras se seguiram à ela. Quando completaram a curva da estrada, uma porteira revelou um sítio esquecido por aquelas bandas. Seus corações palpitaram de alívio, e com a chuva ainda sob seus corpos, atravessaram a porteira e seguiram até as luzes.
Era uma casinha pequena, tendo ao lado de uma estrebaria e uma casa de moendas. Da posição em que estavam as construções compunham um bonito quadro tendo as Monhtanhas Ohogan ao fundo, bem distantes. Mikayla observou algo que parecia uma ponte e um moinho à alguns quilômetros de distância, no que parecia ser uma colina: se algo perigoso acontecesse poderiam correr para lá.
                – Quem está aí? – bradou uma voz masculina, vinda do interior do casebre.
                – Somos viajantes, senhor. Poderia nos fornecer abrigo contra a chuva?
                A voz demorou a responder. Quando Fiolon estava prestes a repetir o pedido, ela retrucou:
                – Vocês podem ficar lá atrás, na estrebaria!
“Isso não é forma de se acolher quem pede abrigo!”, pensou Mikayla, mas de todo o jeito era melhor do que permanecer na chuva. E nem era um local tão ruim assim, já que parecia não receber animais há muito tempo. A palha estava seca e o casal ajeitou um canto para os animais e depois outro para eles. Trocaram as roupas encharcadas por outras mais secas e aninharam-se para descansar. Temiam acender alguma fogueira e acidentalmente tacarem fogo no lugar.
– É possível que ele tenha ficado com medo de nós? – indagou Mikayla, ainda incomodada com a recepção de seu anfitrião.
– Não sei, talvez sim. Não sabemos o que se passa por este lugar.
O cansaço abateu sobre eles e adormeceram rapidamente, sem sequer se preocuparem em montar vigia. Seus corpos cederam àquele conforto mínimo, crentes que não poderia haver perigo quando uma hospedagem lhes foi concedida: simplesmente relaxaram.
Não poderiam estar mais errados



segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Arquimagos - Explorando Labornok

Parte II - Explorando Labornok

Capítulo IX

– Ô lugarzinho feio! – gemeu Mikayla.
– Está assim porque foi mal cuidado, coisa que caberá à nova Arquimaga reparar – Fiolon disse, com ênfase no “nova” – Se ela não começar a amar esta terra provavelmente não fará um bom trabalho.
Mikayla virou o rosto: detestava esta mania de Fiolon de levar tudo ao pé da letra. Ela até poderia amar Labornok algum dia, mas não podia negar a si mesma que o lugar era feio. Feio não, esquisito, estranho. Era isso mesmo: estranho era a principal característica daquele lugar. O canto mais selvagem de Ruwenda era o que Labornok tinha de melhor. Em suas andanças anteriores já havia se dado conta que o ecossistema não vivia, sobrevivia à custa da lei do mais resistente, o que ali significava ser o organismo mais simples e mutável, como plantas miúdas e pequenos insetos. A primeira coisa perceptível em uma grande mudança neste ecossistema seria o desaparecimento destes seres, mas eles estavam lá, nas grandes camadas de musgo cobrindo as árvores e nos diversos répteis e moluscos que a jovem arquimaga só conhecera através de livros - e a má impressão que sentira quando lera tais informações só aumentou depois que colocara os pés por aquelas terras.   
“– Quer dizer que para cuidar bem das minhas terras tenho que amá-las? Você então ama mais a Var do que a Ruwenda, a terra que te abrigou?” – Mikayla provocou Fiolon dando início a uma discussão mental. Percebeu que ele ficou corado antes de resposnder
“­– Não me venha com essa! Eu gosto das duas terras por igual, a que me criou e a que me escolheu para cuidar. Não posso medi-las com pesos iguais, uma sempre terá vantagem sobre a outra dependendo do que estiver sendo mensurado!”
Mikayla emitiu um “humpft” e decidiu não falar mais nada. Argumentar com Fiolon nem sempre era divertido, ainda mais se estivessem cansados. Marchavam a vários dias enfrentando toda espécie de intempéries e diferentes temperaturas, e o pior era saber que a quilo era só o começo de uma viagem sem data definida para terminar. Saíram das Montanhas Ohogan caminhando junto com os vispis até o sopé das montanhas do lado labornokiano, sempre seguindo em sentido norte. Fiolon achou melhor dispensar os guardas e seguirem como andarilhos. Não faziam ideia do que encontrariam pelo caminho e um guia local poderia passar informações mais precisas das necessidades da terra. Mikayla bem que tentou utilizar-se da mesa de areia e dos artefatos tecnológicos que ganhou de herança da arquimaga, mas não deu certo: a mesa de areia ainda estava incompleta, e o “espelho mágico” distinguia somente manifestações naturais como terremotos, avalanches, e enchentes; algo sutil como a derrubada de algumas árvores aqui ou o surgimento de uma praga que matasse animais e plantas acolá passariam despercebidos. Ainda assim, traçaram uma rota que contemplaria grande parte do território que ainda não fora explorado por eles, partindo da Torre Branca até Derorguila, a antiga capital de Labornok que agora só atua como uma importante cidade litorânea. Mikayla esqueceu qual dos seus irmãos governava por lá. 
Estava anoitecendo quando chegaram aos limites suportáveis aos guias vispis. O ar das florestas labornokianas não era pesado como as de Ruwenda, porém os guias preferiam não se afastar tanto de sua região: disseram que aquelas terras estavam amaldiçoadas, “produzindo gente que não era gente”. Não falaram nada além disso e os arquimagos apenas registraram a informação para futuras investigações. Eles encontraram uma clareira para pernoitarem; no dia seguinte, os guias voltariam para suas casas
– O que houve Mika? – Quis saber Fiolon, ao ver a jovem estática. Alguma coisa a incomodava, uma estranha sensação de estar sendo observada. Ela já vivera algo semelhante quando foram atacados por filhotes de skitreks na infância, mas ali não era território deles. Além disso, seus froniais não davam sinais de captarem ameaça. Ainda assim, o silêncio que se abateu sobre eles obrigou-a a desmontar e a expandir a mente, a fim de alcançar o responsável pelo que quer que fosse.
Tão logo seus pés tocaram o solo tudo mudou de cor e Mikayla pode sentir toda a vida que emanava daquele lugar. Fiolon acompanhava cuidadosamente o seu transe, observando-a: ela permaneceu um longo tempo abaixada, analisando o solo, depois, caminhou vagarosamente até uma moita espinhenta, onde descobriu botões de rosa-branca; em seguida, revirou um tronco coberto de musgos de onde retirou um assustada corumela, uma espécie de coruja. O animal tremia em suas mãos, mas ela acariciou seu pelo enquanto murmurava palavra inaudíveis e ele se acalmou.
–“Sente isto Fio?”
–“Não. O que está fazendo?”
–“Una-se a mim e veja” .
O rapaz o fez. Num instante, sua mente tornou-se uma profusão de imagens e sensações. Ainda estava no mesmo lugar, mas parecia que o universo inteiro estava ali, através de um intrincado ecossistema. Sentia o pulsar da vida na seiva que corria pelos galhos que à pouco julgara secos. Viu as formigas de fogo estáticas em fila como se à espera de alguma ordem. Pôde perceber ao seu redor os olhos dos diversos animais escondidos naquela mata, observando-os, não para atacá-los, compreendeu enfim, mas para admirá-los. E no centro de tudo estava Mikayla, soberana entre eles.
–“Fiquem tranquilos meus amigos, eu vou cuidar de vocês!” – Mikayla prometeu.
Então tudo que era microcosmo fundiu-se, tornando-se uma só coisa, um só corpo, o corpo da jovem de cabelos vermelhos. E com a mesma rapidez todo aquele ambiente tratou de voltar ao normal: as formigas de fogo voltaram a seguir em fila, os coelhos de chifres voltaram para suas tocas, os lagartos alados voaram em direção ao leito de algum rio, enfim... todos os animais retornaram à sua rotina, agora para sempre alterada pela presença da arquimaga. Ao sair do transe, o sorriso de ponta a ponta dela nunca fora tão contagiante:
–Esta terra não é linda?


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Arquimagos - Casamento de Arquimagos

Capítulo VIII


A Cidade de Tas amanheceu bastante movimentada. A primavera estava em seus dias derradeiros, o que significava tempos de chuva a caminho; assim eram os verões em Ruwenda, quentes e bastante úmidos. Chovia quase todos os dias no meio da tarde, o que tornava o trabalho dos ambulantes e feirantes quase impraticável, por isso desesperavam-se para eliminar o maior número de mercadorias possíveis, principalmente as perecíveis.
                Aquela movimentação toda encantava Mikayla. Achou que estava com repulsa a multidões quando se incomodara com os nobres no castelo, mas daquela multidão ela gostava. Há dias ela e Fiolon estavam navegando rio abaixo e aquele fora o primeiro porto em que desembarcaram. Levavam consigo pouquíssimas provisões – o restante de seus pertences seguiria de barco já que não havia estradas decentes para transitar com grandes volumes entre Ruwenda e Var: um grande desfiladeiro separava a Cidade de Tass da Floresta Tassaleyo e o caminho por ali era no estilo lá-vai-um.  Assim, ao invés de dar a volta necessária para chegar à parte menos elevada da fronteira (quase adentrando o Reino de Zinora) juntamente com os seus bens, os arquimagos decidiram descer o desfiladeiro. Fiolon tinha pressa de apresentar a sua moradia oficial em Let à princesa. Somente dois guardas acompanhavam o casal, que não queria se passar por nobres; e uma vez que seus rostos não eram tão conhecidos, misturavam-se facilmente entre o povo humano e as tribos odlings.
                Da janela de seu quarto, localizado no segundo andar de uma hospedaria para comerciantes, Mikayla olhava o ir e vir do povo nas vielas e nas ruas. Os humanos e as tribos circulavam pacificamente entre si e aquela mistura dava-lhe paz. Seus dezoito anos de vida dividiram-se em vida na corte, idas para os pântanos a fim de explorar e, nos últimos seis anos, no convívio com o gelo das montanhas. As viagens às cidades como substituta da arquimaga ocorriam á noite, quando os povos estavam dormindo, por isso o fascínio ao estar entre eles depois de tantos anos. Divertia-se com aquela intensidade: aspirou fundo para captar os cheiros que vinham da rua... e desmaiou!
                Voltou a si abrindo os olhos devagar, tentando reconhecer o ambiente a sua volta. Estava na cama, e uma voz estranha falava no vestíbulo.
                – Ela ficará bem. Só precisa descansar e alimentar-se melhor. O senhor disse que vieram das montanhas? Bem a diferença de pressão no ar costuma afetar que está à caminho de lá não o contrário...
                – Já estamos nas partes baixas há bastante tempo...
             – Temo realmente ser o principio de uma subnutrição, ela é muito magra para a idade que tem... Quantos anos disse?
– Dezoito.
– Dezoito, certo...
“Céus, eu devo ter desmaiado feio para Fiolon chamar um curandeiro”
“Muito feio”, a voz de Fiolon penetrou em sua mente. Ele parecia zangado e ao mesmo tempo aliviado. Não demorou muito estava sentado na cama ao lado de Mikayla, querendo saber como ela se sentia.
– Bem, eu acho... O que aconteceu comigo?
– Eu senti algo estranho, uma ausência. Vim vê-la e a encontrei jogada no chão de olhos abertos. Eu me desesperei porque não conseguia alcançar seus pensamentos...Agora consigo ouvir você bem, e a sensação de nada passou... Foi alguma coisa com a terra?
– Oh! Pelos Senhores do ar, a terra... – Mikayla se deu conta de que desde que chegara a Cidadela não vistoriava a terra. Sentia as variações, mas não focava nelas, como aprendera a fazer. Culpou-se internamente com tamanha irresponsabilidade.
– Você esqueceu... – murmurou Fiolon, que lera a sua mente. – Tudo bem, faremos a vistoria juntos, quando você estiver mais fortalecida. Se houver algum problema em Laboruwenda uma arquimaga fraca não vai ajudar...
Porém os pensamentos de Mikayla se tornaram mais preocupantes:
– Fiolon, eu não estou morrendo, estou? Eu não posso estar: acabei de me tornar arquimaga, sou jovem, forte, saudável!
– Eeeii... De onde veio tamanha tolice? – ele a abraçou. Em seus pensamentos as lembranças das síncopes da Arquimaga Haramis passaram instantaneamente – Não é o mesmo com você está bem? Acredito mesmo que tenha sido pela mudança de ares.
– Acabamos de nos casar...
– E permaneceremos assim por um longo tempo!
Ficaram um longo tempo abraçados, cada um com suas preocupações próprias em torno do possível mal que a terra estivesse reclamando. Fiolon conectou-se a Var, tentando encontrar alguma informação a partir dali, mas o problema certamente era no país em que se encontrava. Alguém bateu na porta, e ele lembrou-se que os guardas que os acompanhavam aguardavam notícias de Mikayla e foi atendê-los, informando que a princesa se encontrava bem, porém adiariam a viajem em um ou dois dias. 
Assim que se viu sozinha Mikayla não perdeu tempo: estendeu os braços e uniu-se à terra.
Como um pássaro que atravessa os ares assim era a visão da arquimaga ao vistoriar suas terras. Começou de onde estava, da Cidade de Tass, e avançou até as fronteiras de Var, percorrendo toda a floresta Tassaleyo. De lá retrocedeu até a Cidadela e partiu para os pântanos Verde, Negro e Labirinto, onde viu os habitantes nyssomus. Passou pelas ruínas dos Desaparecidos, onde encontrara o colar que ela e Fiolon usam para se comunicar a longas distâncias, e avançou para as Montanhas Ohogan, eternamente cobertas de gelo. No monte Brom, avistou Enya e alguns empregados limpando o pátio para evitar que a neve cobrisse as placas solares das quais ele era feito e que sem sua energia grande parte dos artefatos tecnológicos da torre deixavam de funcionar; passou pelo Monte Gidris e seu coração estremeceu ao ver as ruínas do Templo de Merrit, destruído por Haramis, e finalmente, o Monte Brom, onde habitava seu amigo, o abutre gigante Olho vermelho, finalizava a vistoria por toda parte Ruwendiana.
“Até aqui tudo bem”, pensou Mikayla. No entanto, quando ultrapassou a antiga fronteira entre Ruwenda e Labornok sentiu um baque muito forte e por pouco não tornou a desmaiar; algo, no entanto, a manteve firme. “Então aqui é o problema!”. Ela retornou devagar para o seu próprio corpo e ao chegar à Tass sentiu a presença que a ajudara a manter-se firme: ainda semiconsciente estendeu uma das mãos para aquela presença e pode sentir o imenso carinho que o Lorde Branco de Var lhe dispensava.
“Porque não me esperou?” Ele quis saber, tão logo as barreiras impostas por Mikayla enfraqueceram.
“Sou a Arquimaga de dois reinos; estive prestes a falhar com eles e preciso reparar isto”
“Podemos fazer isto juntos, você sabe!”
“Sim, eu sei, mas também quero fazer algo por mim mesma. Não poderei depender de você para sempre. Ainda não aprendi a controlar e entender os anseios da minha terra tanto quanto você compreende Var.”
“Eu temo que algo te aconteça”
Mikayla apertou de leve as mãos do marido. Quando abriu os olhos, plenamente consciente em seu corpo, foi recebida por um sorriso amável.
– Precisamos voltar para a torre.
– Algum problema com Ruwenda?
– Não, estas terras estão bem. Preciso me preparar para explorar Labornok.
O sorriso amável desapareceu.   


Na clareira, o grupo se reunia sob a luz do Luar. A fogueira brilhante tocava o céu, aquecendo aqueles que dançavam a sua volta. Riam e brincavam, embriagados pelo néctar da bebida ardente que queimava a garganta e lhes davam uma sensação de paz e felicidade. Sentiam-se livres, como há muito tempo não se sentiam. Seres mascarados juntaram-se a eles naquela estranha dança. Alguns ficaram hipnotizados; outros, mal repararam. De um ponto afastado, porém alto e que lhe permitia observar toda a movimentação, um par coberto com pele lupina observava. Quando todos mascarados dançavam acompanhados, aquele que tinha a pele lupina mais escura os braços, dando o sinal. Lá embaixo, aqueles em volta da fogueira que se encantaram com os seres mascarados foram conduzidos para o interior da floresta, enquanto o fogo crepitava alto e os tambores ressoavam. 


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Hiato

Aquela sequencia de duas vogais pertencentes a sílabas separadas de uma palavra tem como nome o mesmo significado de lacuna, pausa. Ás vezes uma pausa muito grande, sem nenhuma perspectiva de continuidade.

Estou com um hiato aqui, na continuidade da história dos arquimagos: não que não tenhamos histórias para apresentar, porém ela tomou dois caminhos que no momento não decidi ainda qual apresentar a vocês primeiro!! Enquanto alguns escritores como o já renomado Stephen King simplesmente deixam as idéias fluírem, outros preferem seguir um roteiro previamente elaborado, passo a passo. E aqui estou no meio deste caminho: a história foi desenvolvida livremente, no entanto ao ser apresentada aqui neste universo suas edições e desenvolvimento de personagens, ela começou a se tornar "uma outra história". E aí foi engolida pelo Tempo - este poderoso ser que nada mais faz do que simplesmente passar, porém sua passagem deixa marcas poderosas e distâncias por vezes infinitas.

Seguirei com a história conforme planejada inicialmente, ainda que hajam mudanças neste caminhar. Então, nas próximas semanas estejam prontos para os próximos capítulos de Arquimagos!

E se quiserem dar suas opiniões sobre as histórias já postadas aqui sempre serão bem vindos!